O novo mapa sanitário
O estudo mapeou 26.057 amostras diagnósticas provenientes das regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste, gerando mais de 68 mil testes específicos para a tilápia-do-Nilo (Oreochromis niloticus). Os pesquisadores constataram que o ISKNV respondeu pela maior taxa de positividade do levantamento (23,3%), seguido por Lactococcus spp. (18,4%) e Streptococcus spp. (15,2%).
Segundo os cientistas, esse achado redefine a visão histórica da sanidade da espécie no país. O ISKNV e o Lactococcus deixaram de ser ameaças emergentes para se tornarem agentes endêmicos estabelecidos, particularmente nos polos de produção do Sudeste e do Centro-Oeste. A análise de coinfecção indicou ainda que, embora a maioria dos patógenos circule de forma independente, existe uma associação fraca, porém consistente, entre esses três agentes principais, sugerindo que eles compartilham e se aproveitam dos mesmos ambientes produtivos estressantes.
Expansão para o Nordeste e alívio temporário
Além da consolidação desses patógenos nas regiões tradicionais, a pesquisa identificou uma clara expansão geográfica. Tanto o ISKNV quanto o Streptococcus spp. apresentaram um aumento significativo de detecções no Nordeste ao longo do período analisado, saindo de uma base quase nula em 2023 para uma circulação substancial em 2025.
Apesar do avanço, o setor produtivo brasileiro mantém um status altamente favorável e estratégico em relação a uma ameaça específica. Os pesquisadores não detectaram nenhuma presença do Streptococcus agalactiae sorotipo Ia, especificamente a linhagem clonal ST7 CC1. Trata-se de um patógeno altamente virulento que devastou produções de tilápia em seis outros países da América Latina recentemente, reforçando a urgência de blindar as fronteiras nacionais.
Resistência antimicrobiana em alerta
O estudo também avaliou a suscetibilidade antimicrobiana das bactérias isoladas nas fazendas. A equipe observou que os perfis de resistência estão estritamente ligados à identidade do patógeno e ao medicamento específico, o que invalida o uso de tratamentos empíricos sem a confirmação prévia por antibiograma.
Bactérias como Edwardsiella spp. e Lactococcus spp. apresentaram concentrações inibitórias mínimas elevadas para enrofloxacina e florfenicol. Além disso, a fase de alevinagem exibiu os maiores índices de resistência, destacando a necessidade de um uso racional e direcionado de medicamentos nas etapas iniciais de cultivo.
Ajuste na vigilância
Com base no robusto banco de dados gerado, os cientistas recomendam que os programas de monitoramento adotem uma frequência trimestral e expandam seus painéis moleculares para a identificação precisa de espécies e sorotipos. Os achados reforçam que o manejo sanitário eficaz na tilapicultura moderna depende de vigilância contínua e controle rigoroso sobre a movimentação de peixes vivos e alevinos entre as bacias hidrográficas.
