Selenoneína: o poder antioxidante escondido no pescado

IntroduçãoO selênio é um micronutriente essencial para a saúde humana, desempenhando importante papel nos processos antioxidantes, imunológicos, endócrinos e metabólicos. No entanto, seus efeitos biológicos dependem não apenas da quantidade ingerida, mas também da forma química em que esse elemento se encontra. Nesse contexto, a especiação do selênio torna-se um fator determinante para a compreensão de sua biodisponibilidade e funções metabólicas. Entre as espécies de selênio presentes em alimentos de origem marinha, a selenoneína tem emergido como uma das mais relevantes, especialmente em peixes migratórios e outras espécies de pescado consumidos pela população. Nesse sentido, o crescente interesse por esse composto decorre de suas propriedades antioxidantes, de sua distribuição específica nos tecidos e de sua possível participação na modulação dos efeitos tóxicos do metilmercúrio. Além disso, evidências recentes sugerem que a selenoneína pode influenciar a avaliação do estado nutricional do selênio, particularmente em populações com elevado consumo de pescado, nas quais biomarcadores tradicionais baseados em selênio total podem não refletir adequadamente a suficiência funcional desse micronutriente.

Estrutura química e origem da selenoneína

A selenoneína (2-selenil-Nα,Nα,Nα-trimetil-L-histidina) é um composto organosselênio estruturalmente análogo à ergotioneína, distinguindo-se pela substituição do átomo de enxofre por selênio. Essa característica estrutural confere ao composto elevada capacidade redox e maior atividade sequestradora de radicais livres em comparação ao seu análogo sulfurado. Inicialmente, acreditava-se que a selenoneína fosse formada por incorporação inespecífica de selênio em vias metabólicas da ergotioneína. Contudo, estudos mais recentes demonstram a existência de uma via biossintética específica em microrganismos, envolvendo genes dedicados (senA, senB e senC), o que reforça seu caráter de metabólito biologicamente regulado. Como organismos animais não parecem sintetizar selenoneína, sua presença em peixes, mamíferos marinhos e aves marinhas está associada principalmente à dieta e, possivelmente, à atividade do microbioma.

Ocorrência e distribuição no pescado

A selenoneína foi inicialmente identificada no sangue do atum azul, sendo posteriormente detectada em diversas espécies de peixes, incluindo outras espécies de atuns, cavala, sardinha, peixe-espada, salmonídeos e bacalhau. Além disso, sua ocorrência foi confirmada em lulas, mamíferos marinhos e aves marinhas, evidenciando ampla distribuição ao longo das cadeias tróficas oceânicas. A distribuição da selenoneína nos tecidos apresenta caráter altamente específico. Em peixes, concentrações significativamente mais elevadas são observadas no sangue e no músculo escuro, enquanto o músculo branco apresenta teores consideravelmente inferiores. No atum azul, por exemplo, foram relatados valores aproximados de 430 ± 82 μmol Se/kg no sangue total e 190 ± 8 μmol Se/kg no músculo escuro, em contraste com apenas 2,4 ± 0,3 μmol Se/kg no músculo branco. Esse padrão sugere forte associação com tecidos metabolicamente ativos e ricos em hemoproteínas. Além disso, a selenoneína também é encontrada em órgãos como fígado, rins, coração e baço. Em aves marinhas, como os petréis-gigantes, concentrações elevadas foram observadas no tecido cerebral, sugerindo possível envolvimento em funções neuroprotetoras. A variabilidade de concentração entre espécies, tecidos e condições ambientais é expressiva. Em humanos com elevado consumo de pescado, níveis elevados de selenoneína são frequentemente observados em eritrócitos. Em populações japonesas e indígenas canadenses (Inuit), por exemplo, foram registrados valores amplamente variáveis, diretamente relacionados ao padrão alimentar e ao consumo de alimentos marinhos tradicionais.

Propriedades biológicas e mecanismos de ação

A selenoneína apresenta elevada atividade antioxidante, sendo capaz de neutralizar espécies reativas de oxigênio (ROS), incluindo radicais livres altamente reativos. Essa propriedade contribui para a proteção de biomoléculas essenciais, como lipídios, proteínas e DNA, contra danos oxidativos. Adicionalmente, o composto participa da regulação do estado redox intracelular e da manutenção do ferro na forma reduzida (Fe²⁺), contribuindo para a estabilidade de hemoproteínas, como hemoglobina e mioglobina. Essas funções são particularmente relevantes em tecidos com alta atividade metabólica. Do ponto de vista metabólico, a selenoneína apresenta comportamento distinto das formas clássicas de selênio. Diferentemente de compostos como selenometionina e selenocisteína, que participam da via de formação de selenoproteínas, a selenoneína é transportada por meio do transportador de ergotioneína (ETT/OCTN1) e tende a se acumular em eritrócitos e tecidos específicos. Seu metabolismo envolve vias próprias, incluindo processos de metilação e excreção urinária na forma de Se-metilselenoneína. Outro aspecto relevante é sua interação com metais pesados. Evidências sugerem que a selenoneína pode contribuir para a desmetilação do metilmercúrio e formação de complexos menos tóxicos, reduzindo sua biodisponibilidade e efeitos adversos. Essa propriedade tem implicações importantes para a segurança alimentar, especialmente no consumo de pescado de alto nível trófico.

Implicações nutricionais e para a saúde humana

A selenoneína vem sendo investigada como um composto bioativo de elevado potencial funcional. Estudos experimentais indicam sua associação com a redução do estresse oxidativo, modulação de processos inflamatórios e melhora da função hepática. Em populações com elevado consumo de pescado, como japoneses e comunidades inuítes, a selenoneína pode representar uma fração predominante do selênio circulante, podendo alcançar cerca de 90% do total presente nos eritrócitos. Esses achados indicam que a avaliação baseada apenas no selênio total pode ser inadequada, sendo necessário considerar a especiação química para uma interpretação mais precisa do estado nutricional.

Determinação analítica da selenoneína

A quantificação da selenoneína em alimentos e matrizes biológicas requer técnicas analíticas avançadas, sendo a cromatografia líquida acoplada à espectrometria de massa com plasma indutivamente acoplado (LC–ICP-MS) a principal abordagem utilizada. Protocolos de extração utilizando ditiotreitol (DTT) têm demonstrado elevada eficiência, com baixos limites de detecção e alta recuperação analítica, garantindo precisão e confiabilidade dos resultados.

Aplicações em ciência de alimentos e tecnologia

A estabilidade da selenoneína durante o processamento de alimentos, aliada à sua presença em tecidos de alto valor nutricional, confere a esse composto potencial relevante para aplicações em alimentos funcionais. Além disso, pode atuar como biomarcador de consumo de pescado e como indicador da qualidade nutricional de produtos de origem marinha.

Conclusão e Perspectivas futuras

A selenoneína destaca-se como um dos principais compostos bioativos presentes no pescado, desempenhando papel relevante na bioquímica do selênio em organismos marinhos e apresentando crescente importância na nutrição humana. Sua elevada atividade antioxidante, associada à capacidade de interação com metais tóxicos, reforça seu potencial tanto na promoção da saúde quanto na segurança alimentar.

Apesar dos avanços recentes, ainda existem lacunas significativas no conhecimento sobre a selenoneína. Investigações futuras devem aprofundar a compreensão de sua biodisponibilidade, metabolismo em humanos e efeitos fisiológicos a longo prazo. Além disso, são necessários estudos clínicos que confirmem seus potenciais benefícios à saúde. Paralelamente, o desenvolvimento de métodos analíticos mais acessíveis e a exploração de aplicações industriais, incluindo seu uso como ingrediente funcional, representam áreas promissoras. Nesse cenário, a selenoneína desponta como um dos compostos mais relevantes da nova geração de bioativos derivados do pescado.

Informações adicionais em:

Little, M.; Achouba, A.; Ayotte, P.; Lemire, M. (2025). Emerging evidence on selenoneine and its public health relevance in coastal populations: a review and case study of dietary Se among Inuit populations in the Canadian Arctic. Nutrition Research Reviews, 38(1): 171-180. https://doi:10.1017/S0954422424000039

Matsumoto, E.; Seko, T.; Yamashita, Y.; Yamashita, M. (2025). Determination of selenoneine in seafood and seafood-derived products. Journal of AOAC International, 108(5): 779-785. DOI: https://doi.org/10.1093/jaoacint/qsaf062

Seko, T.; Yamashita, Y.; Yamashita, M. (2025). Overview of the biochemistry and biology of selenoneine. Metallomics Research, 5(1): 24-35. DOI: https://doi.org/10.11299/metallomicsresearch.MR202414

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