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RAS: O tratamento da água também começa no tanque de cultivo

Já faz algum tempo que não apareço por aqui e senti falta dessa nossa conversa sobre a água e os desafios de utilizá-la para produzir organismos aquáticos. Quem acompanhou as primeiras edições desta coluna deve lembrar que gosto de olhar para a aquicultura a partir da engenharia hidráulica e do saneamento. Afinal, como produzir mais, mantendo a qualidade da água para os organismos cultivados, sem esquecer a água que devolvemos ao ambiente?
Sala de formação e materiais didáticos especializados no projeto e na engenharia de sistemas de recirculação aquícola.
Primeiro dia de curso.

Recentemente, participei de uma capacitação em Sistemas de Recirculação Aquícola (RAS, na sigla em inglês) no Freshwater Institute, nos Estados Unidos. Voltei com conhecimentos atualizados, muitas anotações e, principalmente, com vontade de retomar algumas perguntas que considero fundamentais para o setor. Uma delas é bastante simples: será que, ao projetarmos um RAS, estamos pensando no tanque de cultivo como parte do tratamento da água?

Antes de entrarmos nesse assunto, quero contar um pouquinho sobre o caminho que me trouxe até aqui. Como alguns sabem, minha formação é em engenharia civil, com mestrado e doutorado na área de hidráulica e saneamento, especialmente no tratamento de águas residuárias. Quando ingressei no Departamento de Aquicultura da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), encontrei um campo maravilhoso para aplicar esses conhecimentos. Mas precisei aprender a olhar para a água também pelas necessidades dos organismos aquáticos e do produtor.

Em 2012, fiz meu primeiro curso internacional sobre sistemas de recirculação aquícola, no CIHEAM Zaragoza, na Espanha. Foi uma experiência muito importante porque me permitiu fazer a ponte entre o que eu já conhecia sobre tratamento de águas de abastecimento e de efluentes e o que precisava compreender sobre a água utilizada nos cultivos aquícolas. Também foi ali que conheci especialistas e pesquisadores cujos trabalhos passei a acompanhar. Em 2017, participei de outro curso, desta vez oferecido pela Pentair Aquatic Eco-Systems, na Flórida. A abordagem foi mais direcionada ao projeto e à operação dos RAS, com uma visão muito próxima dos desafios do setor produtivo.

Agora, entre os dias 28 de setembro e 1º de outubro de 2026, tive a oportunidade de estar no curso promovido pelo Freshwater Institute, em Shepherdstown, Virgínia Ocidental. Foi muito especial aprender e conversar com pesquisadores que acompanho há anos, como Brian Vinci, diretor da instituição e coautor da quinta edição do livro Recirculating Aquaculture, Travis May, John Davidson, Chris Good, Abhinav Choudhury e Rakesh Ranjan, além de outros profissionais da equipe. Mais do que rever tecnologias, pude discutir como diferentes decisões de projeto influenciam a operação dos sistemas.

Encontro entre investigadores e especialistas da área de engenharia aquícola e recirculação de água.
Katt com os pesquisadores professores Travis May e Abhinav Choudhury

Pois bem, vamos ao que mais me chamou a atenção. Uma das mensagens bastante enfatizadas foi que o projeto de um RAS começa muito antes da escolha dos filtros e dos equipamentos. Começa pelo conhecimento da água que temos disponível. De onde ela vem? Qual é a sua qualidade? Quanto podemos captar? Existe água suficiente para renovar uma parcela do volume de cultivo? Essas respostas mudam completamente as possibilidades de projeto.

Quando a água é limitada ou sua qualidade não permite grandes renovações, pode ser necessário trabalhar com taxas elevadas de recirculação e investir em várias etapas e processos de tratamento. Em outras condições, um sistema de recirculação parcial, conhecido como PRAS, pode ser uma alternativa interessante. A renovação de parte da água pode ajudar a controlar substâncias que se acumulam no cultivo e, dependendo das cargas produzidas, permitir configurações de tratamento mais simples. Mas atenção: isso não significa que um PRAS dispensa automaticamente o biofiltro. É preciso conhecer a produção de compostos nitrogenados, a taxa de renovação e as exigências da espécie cultivada para decidir com segurança.

E aqui chamo a atenção para um ponto especialmente importante para quem projeta, instala ou opera esses sistemas. Temos o hábito de pensar no tratamento da água como algo que acontece depois que ela sai do tanque. Lembramos logo do decantador ou filtro de tambor, do biofiltro, da oxigenação e dos demais equipamentos. Mas será que o tanque de cultivo é apenas o lugar onde ficam os peixes?

Na minha avaliação, não. O tanque precisa participar ativamente da estratégia de tratamento da água. É nele que a ração é ofertada, que os organismos produzem fezes e que surgem partículas e resíduos que precisarão ser removidos. Portanto, o formato do tanque, a posição das entradas e saídas de água e o modo como ela circula influenciam o que acontecerá com esses sólidos. Se eles permanecem por muito tempo no sistema, podem se fragmentar, dificultando sua remoção e aumentando a carga sobre as demais unidades de tratamento.

Conjunto de tanques cónicos e decantadores numa unidade de tratamento de efluentes em sistema aquícola de recirculação.
Laboratório de tratamento de aguas residuarias do FI

Vamos pensar num exemplo. Dois tanques podem ter a mesma biomassa de peixes e receber a mesma vazão de água. No entanto, se um deles favorece o transporte dos sólidos até a saída e o outro possui regiões onde os resíduos se acumulam, o desempenho do sistema será diferente. É por isso que gosto de insistir: não basta fazer a água circular, precisamos saber como ela circula e para onde está levando aquilo que queremos remover. Em outras palavras, a hidrodinâmica dos talques de cultivo é tão importante quanto a eficiência dos equipamentos e processos de tratamento da água de recirculação.

Durante o curso, foi dada bastante ênfase aos tanques circulares com dupla drenagem. Nesse arranjo, uma saída inferior permite concentrar e retirar os sólidos que sedimentam mais rapidamente, enquanto outra saída conduz a maior parte da vazão, incluindo as partículas que continuam na coluna d’água. As correntes podem, então, receber tratamentos adequados às suas características. Não se trata de dizer que toda instalação precisa ter exatamente esse modelo, nem de substituir a filtração mecânica. A questão é compreender como o desenho do tanque e consequentemente a hidrodinâmica gerada pelas linhas de Corrente de água pode facilitar o trabalho dos equipamentos que vêm depois.

Mas temos outro desafio: qual deve ser a velocidade da água dentro do tanque? Uma circulação que ajuda a deslocar os sólidos também precisa ser adequada aos peixes. A velocidade que favorece a autolimpeza nem sempre é aquela que proporciona as melhores condições de natação e bem-estar. Isso depende da espécie, do tamanho dos animais, da fase de cultivo e também da distribuição das velocidades no tanque. Percebem quantas decisões de engenharia estão envolvidas em algo que, à primeira vista, parece apenas um reservatório de água?

É justamente nessa discussão que vejo uma contribuição importante dos estudos de hidráulica e da modelagem hidrodinâmica. Podemos avaliar a circulação, identificar regiões com velocidades muito baixas, estudar o transporte dos sólidos e comparar alternativas de posicionamento das entradas e saídas de água. Quando associamos essas informações ao comportamento e às necessidades dos peixes, temos melhores condições de buscar um equilíbrio entre a autolimpeza e o bem-estar animal.

Outro assunto que mereceu destaque foi o controle dos gases dissolvidos. Não basta fornecer oxigênio aos peixes. Também precisamos considerar o dióxido de carbono (CO₂) que se acumula na água em sistemas intensivos. Conheci discussões muito interessantes sobre o dimensionamento dos oxigenadores de baixa carga hidráulica, os LHO (Low Head Oxygenator), que podem favorecer uma oxigenação eficiente com pequenas diferenças de nível. Já a retirada de CO₂ precisa ser considerada com atenção, normalmente com equipamentos próprios de desgaseificação. São escolhas que afetam a qualidade da água, o consumo de energia e os custos da operação.

E a água que sai do RAS? Esse é outro assunto pelo qual tenho especial interesse. Mesmo quando recirculamos grande parte da água, continuamos produzindo águas residuárias, especialmente nas lavagens dos filtros e na remoção dos sólidos. Chamamos essas porções de água que saem do sistema de PURGA. Podemos tratar essas porções e avaliar se parte da água recuperada tem condições de retornar ao cultivo? Em determinadas situações, sim, desde que o tratamento garanta a qualidade exigida e a biossegurança do sistema. Ainda temos muito a pesquisar sobre as tecnologias e as combinações de processos que sejam eficientes e viáveis para essa finalidade. Especialmente no nosso país.

Também tivemos contato com pesquisas de automação, inteligência artificial e aprendizado de máquina. A utilização de câmeras e algoritmos para acompanhar os peixes, estimar biomassa, observar comportamentos e auxiliar nas decisões de manejo mostra caminhos interessantes. Os RAS, por funcionarem em ambientes geralmente bem controlados e produzirem muitos dados operacionais, oferecem boas oportunidades para essas aplicações. Ao mesmo tempo, precisamos avaliar com cuidado a robustez dessas ferramentas e sua utilidade na rotina das fazendas. Tecnologia só é avanço quando ajuda a resolver problemas reais.

Laboratório de inteligência artificial do Freshawater Institute

Ao final do curso, fiquei pensando no quanto ainda temos a construir no Brasil. Não precisamos simplesmente reproduzir equipamentos e modelos de sistemas utilizados em outros países. Precisamos conhecer as nossas fontes de água, as espécies que cultivamos, as condições das propriedades e os custos que os produtores conseguem assumir. Às vezes, a melhor solução não será o sistema mais complexo, mas aquele que consegue reunir eficiência, facilidade de operação e viabilidade econômica.

Essa capacitação foi, para mim, uma oportunidade de renovar conhecimentos e, principalmente, de ganhar novo entusiasmo para pesquisar, ensinar e conversar com colegas do setor técnico e produtivo. Temos muitas perguntas pela frente: como melhorar o desempenho hidráulico dos tanques? Como remover mais rapidamente os sólidos? Como recuperar água das unidades de tratamento das águas residuárias do RAS? E quais tecnologias podem, de fato, contribuir para uma aquicultura brasileira mais eficiente no uso da água?

É com essas perguntas que retomo a nossa coluna. Quero continuar compartilhando com vocês o que aprendemos na pesquisa e também ouvindo as experiências de quem projeta e opera os sistemas no dia a dia. Afinal, quando falamos em RAS, não estamos falando apenas de filtros ou de equipamentos. Estamos falando de um conjunto de decisões que começa na água disponível, passa pelo tanque de cultivo e chega até o destino que damos aos resíduos.

Vamos seguir essa conversa?

Freshwater Institute: https://www.conservationfund.org/our-programs/freshwater-institute/

Fotos: katt Regina Lapa

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