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Neocaridina davidi tem tolerância térmica reduzida pela salinidade

O avanço da salinização e a alteração dos regimes térmicos em corpos d’água doce impõem desafios fisiológicos crescentes à fauna aquática e remodelam os padrões de invasões biológicas. Para compreender como múltiplos estressores afetam decápodes dulcícolas, pesquisadores da Université de La Réunion e OCEA Consult, na França, da University of Lodz e Warsaw University of Life Sciences, na Polônia, e da UNESP, no Brasil, avaliaram a tolerância térmica e salina do camarão neocaridina (Neocaridina davidi). O estudo investigou a plasticidade fisiológica da espécie frente à combinação de variações de temperatura e salinidade.

O desenho experimental e as linhagens avaliadas

A pesquisa utilizou espécimes comerciais obtidos no mercado ornamental da Alemanha, Polônia e Brasil, além de indivíduos selvagens de diferentes históricos evolutivos. Entre os grupos selvagens estavam populações da Ilha da Reunião, estabelecidas em rios não termais sob gradiente de altitude e clima, e animais do canal artificial aquecido de Dolna Odra, na Polônia, onde a espécie persiste há mais de duas décadas em águas submetidas a efluentes térmicos e salinos.

Os animais foram submetidos a ensaios dinâmicos para mensuração de temperaturas críticas mínimas (CTmin) e máximas (CTmax), além do limite térmico letal (LTmax). Os protocolos envolveram faixas de aclimatação térmica de 15 °C a 27 °C e salinidades de 0‰ a 10‰.

Conflito energético entre calor e osmorregulação

Os resultados demonstraram que o aumento da salinidade reduz a tolerância térmica de Neocaridina davidi, independentemente do histórico da população. Em camarões aclimatados a 25 °C, o incremento de salinidade de 0‰ para 10‰ elevou o CTmin entre 3,80 °C e 4,35 °C e reduziu o CTmax entre 1,40 °C e 2,45 °C.

Os autores apontam que a restrição ocorre devido a um custo energético direto: sob condições salinas estressantes, os decápodes dulcícolas precisam intensificar o transporte ativo de íons para manter o equilíbrio osmorregulatório interno. Esse gasto metabólico desvia a energia celular que seria destinada aos mecanismos de proteção e tolerância a temperaturas extremas.

Plasticidade adaptativa e colapso funcional precoce

Embora a espécie suporte salinidades mais altas em rampas rápidas de exposição, o processo gradual de aclimatação causou letargia generalizada em salinidades a partir de 15‰, evoluindo para mortalidade total entre 20‰ e 25‰. Essa resposta indica que o colapso do desempenho ecológico ocorre antes de os limites letais fisiológicos serem atingidos.

Todas as populações apresentaram plasticidade térmica, mas com magnitudes distintas. A população da Ravine Mare à Poule d’Eau, na Ilha da Reunião, exibiu a maior tolerância a baixas temperaturas, enquanto os espécimes do canal aquecido polonês apresentaram maior adaptação ao calor e menor resistência ao frio.

Implicações para o potencial invasor

Apesar de tolerar incursões em águas salobras de baixa concentração salina, a capacidade de invasão do camarão neocaridina sofre barreiras ecológicas relevantes. A letargia provocada pelo estresse osmótico e pelas baixas temperaturas compromete o forrageamento e a capacidade de fuga. Nos rios da Ilha da Reunião e nos canais poloneses, a predação exercida por peixes nativos e a instabilidade hidrológica dos estuários surgem como os principais fatores de contenção da dispersão da espécie.

Fonte: Thermal and salinity tolerance of feral and pet-traded cherry shrimp Neocaridina davidi (Bouvier, 1904)

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