O desenho experimental e as linhagens avaliadas
A pesquisa utilizou espécimes comerciais obtidos no mercado ornamental da Alemanha, Polônia e Brasil, além de indivíduos selvagens de diferentes históricos evolutivos. Entre os grupos selvagens estavam populações da Ilha da Reunião, estabelecidas em rios não termais sob gradiente de altitude e clima, e animais do canal artificial aquecido de Dolna Odra, na Polônia, onde a espécie persiste há mais de duas décadas em águas submetidas a efluentes térmicos e salinos.
Os animais foram submetidos a ensaios dinâmicos para mensuração de temperaturas críticas mínimas (CTmin) e máximas (CTmax), além do limite térmico letal (LTmax). Os protocolos envolveram faixas de aclimatação térmica de 15 °C a 27 °C e salinidades de 0‰ a 10‰.
Conflito energético entre calor e osmorregulação
Os resultados demonstraram que o aumento da salinidade reduz a tolerância térmica de Neocaridina davidi, independentemente do histórico da população. Em camarões aclimatados a 25 °C, o incremento de salinidade de 0‰ para 10‰ elevou o CTmin entre 3,80 °C e 4,35 °C e reduziu o CTmax entre 1,40 °C e 2,45 °C.
Os autores apontam que a restrição ocorre devido a um custo energético direto: sob condições salinas estressantes, os decápodes dulcícolas precisam intensificar o transporte ativo de íons para manter o equilíbrio osmorregulatório interno. Esse gasto metabólico desvia a energia celular que seria destinada aos mecanismos de proteção e tolerância a temperaturas extremas.
Plasticidade adaptativa e colapso funcional precoce
Embora a espécie suporte salinidades mais altas em rampas rápidas de exposição, o processo gradual de aclimatação causou letargia generalizada em salinidades a partir de 15‰, evoluindo para mortalidade total entre 20‰ e 25‰. Essa resposta indica que o colapso do desempenho ecológico ocorre antes de os limites letais fisiológicos serem atingidos.
Todas as populações apresentaram plasticidade térmica, mas com magnitudes distintas. A população da Ravine Mare à Poule d’Eau, na Ilha da Reunião, exibiu a maior tolerância a baixas temperaturas, enquanto os espécimes do canal aquecido polonês apresentaram maior adaptação ao calor e menor resistência ao frio.
Implicações para o potencial invasor
Apesar de tolerar incursões em águas salobras de baixa concentração salina, a capacidade de invasão do camarão neocaridina sofre barreiras ecológicas relevantes. A letargia provocada pelo estresse osmótico e pelas baixas temperaturas compromete o forrageamento e a capacidade de fuga. Nos rios da Ilha da Reunião e nos canais poloneses, a predação exercida por peixes nativos e a instabilidade hidrológica dos estuários surgem como os principais fatores de contenção da dispersão da espécie.
