Relatórios internacionais da WOAH (2024) e avaliações conduzidas pelo USDA-APHIS (2020) convergem para o entendimento de que o transporte de animais vivos representa a principal via de disseminação internacional do agente.
A ausência de notificações oficiais não deve ser interpretada automaticamente como ausência do vírus, podendo refletir limitações na vigilância epidemiológica, na capacidade diagnóstica ou processos de subnotificação.
Diferentemente do trânsito de animais vivos, produtos processados destinados ao consumo humano apresentam condições epidemiológicas substancialmente distintas. A ocorrência de infecção depende simultaneamente da manutenção da infectividade viral, da dose infectante, da via de exposição e da susceptibilidade do hospedeiro (Arthur et al., 2009). Portanto, a simples presença do vírus ou de seu material genético em um produto não implica necessariamente risco sanitário efetivo.

Congelamento e manutenção da infectividade viral
O TiLV possui envelope lipídico externo, característica estrutural que influência diretamente sua estabilidade ambiental. De modo geral, vírus envelopados apresentam menor resistência frente a fatores físicos e químicos, incluindo agentes oxidativos, variações térmicas e processos de desidratação (Yamkasem et al., 2019). Essa característica possui especial relevância para a interpretação do comportamento do TiLV em produtos submetidos ao congelamento.
O principal estudo experimental sobre o tema foi conduzido por Thammatorn et al. (2019), que avaliaram a sobrevivência do TiLV em filés congelados. Os autores verificaram que o RNA viral permaneceu detectável por RT-qPCR durante o armazenamento, porém a infectividade viral apresentou redução progressiva. Em experimentos de desafio, filés congelados por 14 dias não foram capazes de causar mortalidade ou doença em tilápias suscetíveis, indicando risco epidemiológico extremamente reduzido. Resultados semelhantes foram discutidos posteriormente por Tang et al. (2021) e Aich et al. (2022), que destacaram a ausência de evidências consistentes demonstrando que filés congelados comercializados para consumo humano sejam capazes de atuar como fonte epidemiologicamente relevante de disseminação do TiLV.
A persistência de material genético viral (RNA viral) em tecidos submetidos ao congelamento não deve ser interpretada como evidência da manutenção da viabilidade ou infectividade do vírus em condições epidemiologicamente relevantes, uma vez que a detecção molecular pode refletir apenas a presença de fragmentos genômicos residuais sem capacidade de replicação ou transmissão.
Além do congelamento, diferentes estudos demonstraram elevada susceptibilidade do TiLV a agentes desinfetantes e oxidativos. Soto et al. (2019) observaram eficiente inativação viral utilizando cloro e povidona-iodo, enquanto Jaemwimol et al. (2019) demonstraram redução significativa da infectividade após exposição a desinfetantes rotineiramente utilizados na aquicultura. Esses resultados reforçam a vulnerabilidade estrutural do vírus e corroboram a hipótese de redução progressiva da viabilidade viral durante processamento e armazenamento.
Detecção molecular versus infectividade
A interpretação de resultados diagnósticos representa um dos aspectos mais importantes da avaliação de risco sanitário. Métodos moleculares como RT-qPCR apresentam elevada sensibilidade analítica e permitem detectar pequenas quantidades de RNA viral, mesmo quando partículas virais viáveis já não estão presentes (Tang et al., 2021). Dessa forma, a persistência de material genético viral em tecidos congelados não constitui evidência suficiente de manutenção da infectividade em condições epidemiologicamente relevantes.
A presença de RNA viral pode refletir apenas a persistência de fragmentos genéticos residuais após degradação estrutural do vírus (Thammatorn et al., 2019; Tang et al., 2021). A comprovação de infectividade depende de evidências adicionais, como isolamento viral em cultura celular, demonstração de replicação viral e transmissão efetiva para hospedeiros suscetíveis (Tang et al., 2021; WOAH, 2024). Assim, a simples detecção molecular do TiLV não deve ser interpretada automaticamente como evidência de risco sanitário efetivo ou manutenção da infectividade viral.
A detecção de RNA viral por métodos moleculares não implica, necessariamente, que o vírus permaneça viável ou infectante, uma vez que fragmentos genômicos podem persistir mesmo após a perda da integridade estrutural e da capacidade replicativa das partículas virais.
Além da demonstração de infectividade, a maior caracterização de um risco sanitário requer a existência de uma via epidemiologicamente plausível de exposição. Mesmo na hipótese de ocorrência de partículas virais viáveis em produtos congelados, a transmissão dependeria da manutenção da dose infectante, da exposição adequada de hospedeiros suscetíveis e da capacidade do vírus de estabelecer infecção em condições reais de campo.
Dessa forma, a simples presença do agente não constitui, isoladamente, evidência suficiente para caracterização de risco epidemiológico. Essa distinção é amplamente reconhecida nos princípios internacionais de análise de risco adotados pela FAO e pela WOAH, segundo os quais a caracterização do risco deve considerar a plausibilidade biológica da transmissão e não apenas a presença detectável do agente (Arthur et al., 2009; WOAH, 2024).
Considerações finais
O TiLV representa importante desafio sanitário para a aquicultura mundial, especialmente em razão de seu impacto sobre populações vivas de tilápia. Entretanto, as evidências científicas atualmente disponíveis indicam que o risco associado a produtos congelados destinados ao consumo humano é substancialmente distinto daquele relacionado ao trânsito internacional de organismos vivos.
Adicionalmente, até o presente momento, não existem evidências epidemiológicas robustas que associem surtos de TiLV ao comércio, consumo ou descarte de produtos congelados destinados à alimentação humana. Embora essa constatação não elimine a necessidade de vigilância sanitária contínua, ela reforça a importância de que as avaliações de risco sejam fundamentadas em evidências científicas consistentes e em critérios de plausibilidade epidemiológica.
Sob a perspectiva da saúde pública, também não há evidências científicas que indiquem potencial zoonótico do TiLV ou sua capacidade de causar infecção em seres humanos. Nesse contexto, a detecção do agente em produtos de tilápia deve ser interpretada prioritariamente sob a ótica da sanidade aquícola, uma vez que, até o momento, não há demonstração de risco à saúde do consumidor decorrente da exposição ao vírus por meio do consumo desses produtos.
O congelamento Corresponde a uma importante barreira à manutenção da infectividade viral, promovendo redução progressiva da viabilidade do TiLV e do potencial de transmissão epidemiologicamente relevante. Embora o RNA viral possa permanecer detectável por métodos moleculares, sua presença não comprova infectividade, viabilidade biológica ou capacidade de transmissão.
Sob a perspectiva epidemiológica, a avaliação do risco deve considerar simultaneamente infectividade, via de exposição, dose infectante e plausibilidade biológica da transmissão (Arthur et al., 2009; Tang et al., 2021). Portanto, a interpretação do risco sanitário associado a filés congelados deve permanecer fundamentada em evidências científicas robustas e em princípios internacionalmente reconhecidos de análise de risco, evitando extrapolações baseadas exclusivamente na detecção molecular do agente.
Apesar das evidências atualmente disponíveis, estudos adicionais sobre persistência viral, viabilidade em diferentes condições de armazenamento e avaliação quantitativa do risco poderão contribuir para o refinamento contínuo das estratégias de vigilância e gestão sanitária.
Preocupações relacionadas à concorrência comercial e à competitividade de mercado não constituem, por si só, evidências de risco sanitário, devendo as decisões regulatórias ser fundamentadas em avaliações epidemiológicas objetivas e cientificamente comprovadas.
Em síntese, as evidências científicas atualmente disponíveis indicam que a detecção de RNA do TiLV em produtos congelados não deve ser interpretada como evidência direta de infectividade ou risco sanitário efetivo.
A avaliação do risco deve permanecer fundamentada em critérios de viabilidade viral, infectividade demonstrada e plausibilidade epidemiológica da transmissão.
Consequentemente, medidas regulatórias relacionadas ao comércio de produtos congelados devem ser fundamentadas em evidências científicas de infectividade e transmissão, e não exclusivamente na detecção molecular do agente.
As conclusões aqui apresentadas refletem o estado atual do conhecimento científico disponível e devem ser continuamente reavaliadas à luz de novas evidências experimentais e epidemiológicas.
Conflito de Interesses
As informações e conclusões apresentadas neste artigo baseiam-se exclusivamente na análise crítica e integrada da literatura científica disponível, documentos institucionais, avaliações de risco e referenciais técnico-científicos produzidos por organismos nacionais e internacionais de reconhecida credibilidade. A abordagem adotada fundamenta-se em evidências experimentais, dados epidemiológicos, princípios de análise de risco e marcos regulatórios aplicáveis à sanidade aquícola e ao comércio internacional, sem influência de interesses pessoais, comerciais ou institucionais que possam comprometer a imparcialidade das interpretações. O objetivo é contribuir para discussões técnicas e decisões regulatórias baseadas em evidências científicas consistentes, proporcionalidade sanitária e alinhamento com os princípios internacionais de biossegurança e vigilância epidemiológica.
Referências recomendadas
Aich, N. et al. (2022). Tilapia Lake Virus (TiLV) disease: Current status of understanding. Aquaculture and Fisheries, 7(1): 7–17, 2022. DOI: https://doi.org/10.1016/j.aaf.2021.04.007
Arthur, J.R. et al. (2009). Understanding and applying risk analysis in aquaculture: a manual for decision-makers. FAO Fisheries and Aquaculture Technical Paper. No. 519/1. Rome, Italy, 113p. Disponível em: https://www.fao.org/4/i1136e/i1136e.pdf Acesso em 29.04.2026
Bacharach, E. et al. (2016). Characterization of a novel orthomyxo-like virus causing mass die-offs of tilapia. mBio, 7(2), 10.1128/mbio.00431-16. DOI: https://doi.org/10.1128/mBio.00431-16
Jaemwimol, P. et al. (2019). Virucidal effects of common disinfectants against tilapia lake vírus. Journal of Fish Disease, 42(10): 1-7. DOI: https://doi.org/10.1111/jfd.13060
Jansen, M.D.; Mohan, C.V. (2017). Tilapia lake virus (TiLV): Literature review. Penang, Malaysia: CGIAR Research Program on Fish Agri-Food Systems. Working Paper: FISH-2017-04. Disponível em: https://hdl.handle.net/20.500.12348/121. Acesso em 01.05.2026
Soto, E. et al. (2019). Susceptibility of Tilapia Lake Virus to buffered Povidone-iodine complex and chlorine. Aquaculture, 512: 734342. DOI: https://doi.org/10.1016/j.aquaculture.2019.734342
Surachetpong, W. et al. (2020). Tilapia Lake Virus: The story so far. Journal of Fish Diseases, 42(1): 3-9. DOI: https://doi.org/10.1111/jfd.13237
Tang, K.F.J. et al. (2021). Tilapia lake virus disease strategy manual.FAO Fisheries and Aquaculture Circular No. 1220. Rome, Italy, 62 p. Disponível em: https://openknowledge.fao.org/handle/20.500.14283/cb7293en Acesso em 29.04.2026
Thammatorn, W. et al. (2019). Minimal risk of Tilapia Lake Virus transmission via frozen tilapia fillets. Journal of Fish Diseases, 42(4), 589–597. DOI: https://doi.org/10.1111/jfd.12924
USDA-APHIS. (2020). Assessment of the Risk of Introduction of Tilapia Lake Virus (TiLV) by Live Tilapia Imported to Terminal Markets. Washington, DC: United States Department of Agriculture (USDA), Animal and Plant Health Inspection Service (APHIS), 8 p. Disponível em: https://www.aphis.usda.gov/sites/default/files/risk-tilv-tilapia-imported-terminal-markets.pdf – Acesso em 28.04.2026
WOAH (2024). Infection with Tilapia Lake Virus. (Chapter 10.11, p. 287-292). Paris: World Organisation for Animal Health. WOAH Aquatic Animal Health Code, 26th edition, 356 p. Disponível em: https://rr-europe.woah.org/en/news/new-aquatic-code-available-for-download-in-pdf – Acesso em 28.04.2026
Yamkasem, J. et al. (2019). Evidence of potential vertical transmission of Tilapia Lake Virus.Journal of Fish Diseases, 42: 1293-1300. DOI: https://doi.org/10.1111/jfd.13050
