Tilápia-do-nilo altera microbiota após desafio com bactérias patogênicas em sistema aquapônico

Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade de Agricultura de Sokoine, na Tanzânia, identificaram que a infecção por bactérias patogênicas altera severamente a microbiota da tilápia-do-nilo (Oreochromis niloticus) cultivada junto com alface (Lactuca sativa). O experimento, realizado nas instalações da USP em Piracicaba (SP), avaliou os impactos sanitários e de segurança alimentar em sistemas aquapônicos quando os peixes são desafiados por microrganismos causadores de doenças humanas. Os resultados acendem um alerta sobre os riscos de contaminação cruzada nesse modelo sustentável de produção.

O problema da contaminação microbiana

Embora a aquaponia seja amplamente reconhecida por seus benefícios econômicos e ambientais, a coexistência de peixes, plantas e água cria um ambiente dinâmico onde proliferam tanto micróbios benéficos quanto nocivos. A segurança alimentar se torna uma preocupação crítica, uma vez que vegetais como a alface são frequentemente consumidos crus, facilitando a transmissão de patógenos aos consumidores caso haja contaminação pela água ou pelo manejo.

Como o desafio biológico foi realizado

Para entender essa dinâmica, os cientistas utilizaram 144 juvenis de tilápia distribuídos em três tratamentos experimentais. O primeiro grupo funcionou como controle; o segundo foi desafiado com a bactéria Escherichia coli; e o terceiro recebeu inoculação de Vibrio cholerae. Amostras de sangue e fezes foram coletadas antes e depois do desafio biológico para a realização de sequenciamento genético de alto rendimento.

Disbiose e comportamento das comunidades bacterianas

O sequenciamento revealed respostas contrastantes entre os tecidos analisados. Nas amostras fecais, a introdução de Escherichia coli mais do que dobrou a diversidade da microbiota intestinal, enquanto o Vibrio cholerae reduziu drasticamente a riqueza microbiana. No sangue, o padrão se inverteu: a Escherichia coli causou uma redução na diversidade, enquanto o Vibrio cholerae provocou um aumento significativo na variedade de microrganismos. Apesar dessas oscilações, o gênero Cetobacterium permaneceu dominante no intestino dos peixes, atuando como uma barreira natural de defesa.

Riscos à saúde pública e recomendações práticas

A análise taxonômica identificou 27 gêneros de bactérias com potencial patogênico para seres humanos nas amostras de sangue e fezes. Entre os microrganismos detectados figuram gêneros como Aeromonas, Streptococcus, Klebsiella, Clostridium e Staphylococcus, associados a quadros graves de gastroenterite, infecções urinárias e septicemia. Diante desse cenário, os autores recomendam a adoção rigorosa de medidas de biossegurança e sugerem o uso preventivo de probióticos para controlar patógenos humanos antes mesmo da introdução das mudas de vegetais no sistema.

Fonte: Gut and blood microbiota of Nile tilapia (Oreochromis niloticus) reared with lettuce (Lactuca sativa) and challenged with Escherichia coli and Vibrio cholerae in aquaponic systems

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