Chegou o frio… e agora?

O inverno chegou na semana passada e, com ele, o frio mais intenso e a preocupação para quem trabalha com tilápias, especialmente aqui na região Sul do Brasil. Alguns cuidados são de extrema importância quando se trata do bem-estar das tilápias, principalmente em águas com temperaturas mais baixas, lembrando que, esses cuidados valem também para outras espécies de peixes tropicais.

Infelizmente, o clima não pode ser controlado. Em cultivos de peixes em viveiros escavados muitos dos parâmetros de água podem ser corrigidos ao longo da safra, mas quando se fala em temperatura, muito pouco se pode fazer. Pior do que a diminuição gradativa da temperatura da água, são as oscilações bruscas de temperatura na chegada das frentes frias, que podem impactar ainda mais a saúde das tilápias. A preocupação com o inverno deve começar muito antes da frente fria estar chegando no Sul do Brasil. O ideal é começar planejando estrategicamente o cultivo para evitar perdas. Seguem aqui algumas recomendações e dicas para prevenir o aparecimento de doenças, minimizar e, até mesmo, evitar as mortalidades. Você vai ver que esses cuidados começam muito antes mesmo do povoamento dos alevinos e, para isso, um bom planejamento é fundamental!

Escolha da espécie

Eu diria que começa na escolha da espécie. Isso mesmo! Peixes tropicais podem até mesmo tolerar baixas temperaturas, o que é diferente do conforto térmico. Quando alguém nos procura para saber se é viável criar tilápias em regiões mais frias, a recomendação é: tenha um registro das temperaturas mínimas da água no inverno. Cada uma das espécies de peixes possui um conforto térmico para a sua sobrevivência; a tilápia, por exemplo, sobrevive melhor em temperaturas de água entre 20 e 32ºC, porém o seu desempenho zootécnico é mais eficiente nas temperaturas entre 26 e 30ºC.

Além da tilápia ficar imunossuprimida em temperaturas de água abaixo de 18ºC – o que é uma brecha para as doenças oportunistas – o desempenho zootécnico desses peixes é pior, pois há o investimento energético, uma compensação metabólica, para a manutenção da vida e pouco para o sistema de defesa e imunidade destes animais, o que reflete diretamente no custo de produção, dado que, além da eficiência alimentar ser menor, o tempo de cultivo será maior, tornando o quilo desse peixe mais caro.

Semelhante aspecto, é a perda por predação de aves e outros animais, lembrando que peixes menores são mais facilmente predados. E, quanto mais tempo esses peixes permanecerem menores, ou seja, com um crescimento mais lento, menor será a taxa de sobrevivência do lote, impactando diretamente o custo de produção. Já houve casos aqui da região (Norte de Santa Catarina) de 60% de sobrevivência, somente por predação de aves na época de inverno.

Mesmo sendo conhecida como uma espécie bastante rústica, há regiões com águas muito frias em que não é indicado cultivar tilápias; o cultivo de outras espécies pode ser recomendado, como: carpas, jundiás, lambaris e, até mesmo, trutas, dependendo de outros fatores. Além da escolha da espécie, a linhagem também pode contribuir. Atualmente, há programas de melhoramento genético com tilápias mais adaptadas ao frio. Por exemplo, aqui em Santa Catarina, há o programa da Epagri, com seleção de tilápias com melhor crescimento em temperaturas subótimas, como a linhagem Epagri SC04. Esta é a quarta geração do programa de melhoramento genético da equipe, que, ao longo desses 10 anos de pesquisa e aplicação em campo nas Unidades de Referência Técnica (URT), teve um ganho no crescimento de 33,9% ao longo das gerações. O critério para a seleção é o crescimento, mas outros marcadores genéticos são levados em consideração, são eles: tolerância ao frio e resistência a doenças, como ISKNV, Franciselose e Estreptococose.

Preparação do viveiro

A preparação do viveiro, desde a sua desinfecção, caso haja necessidade, é um passo importante para iniciar bem o cultivo. A correção do solo, com aplicação de calcário agrícola, adubação da água para a manutenção dos principais parâmetros de qualidade de água impacta a saúde dos viveiros ao longo de todo o cultivo. Antes da chegada do inverno é importante estar com os viveiros com seu volume máximo, pois, um volume maior de água leva mais tempo para esfriar. E, também, fazer a manutenção da transparência da água, cerca de 25 a 40 cm, pois, normalmente, uma água mais transparente apresenta temperaturas menores. A renovação da água também deve ser monitorada, garantido os parâmetros de qualidade de água adequados.

Época de povoamento

A época do povoamento dos alevinos também pode influenciar no desempenho e sobrevivência; normalmente, os peixes menores são mais sensíveis. Seria importante não chegar no inverno com peixes muito pequenos, menores de 100 gramas, por exemplo, em regiões onde as temperaturas são muito baixas. Em algumas regiões é até mesmo recomendado passar o inverno com os viveiros vazios, planejando a despesca antes das temperaturas baixas chegarem. Para isso pode ser estratégico povoar os viveiros com peixes maiores, alevinos 2 ou até mesmo juvenis, já que a tolerância a temperaturas extremas varia de acordo com a fase de desenvolvimento dos peixes.

Densidades adequadas

As densidades, assim como a escolha dos sistemas de cultivo, deveriam ser planejadas para que os parâmetros de qualidade de água do viveiro permaneçam em níveis adequados durante toda a safra. Quanto maior a biomassa relativa no viveiro de tilápias, menor é o grau de bem-estar, isso afeta muitos fatores, principalmente os parâmetros de qualidade de água, atingindo diretamente o desempenho zootécnico. Portanto, quanto maior as densidades, maior a probabilidade do aparecimento de doenças e, consequentemente, maior deverá ser o controle durante todo o cultivo.

Uso de aeradores

Uma das principais dúvidas durante o inverno é: aciono os aeradores durante a noite ou não? Depende! A resposta sempre será: depende! Cada situação deve ser analisada individualmente para a tomada de decisão. Não há receita de bolo. E quem vai auxiliar na tomada de decisão é o equipamento oxímetro; ele irá te dizer se é necessário ligar ou não o aerador durante a noite, e por quanto tempo. A aquisição do oxímetro é um investimento para a propriedade, pode gerar economia no tempo de aeração e também na redução da conversão alimentar, quando bem utilizado para os monitoramentos. Para isso, basta você medir a concentração de oxigênio no início da manhã; o nível de oxigênio deverá estar acima de 5 mg/l ou acima de 70% de saturação na água, estes são os níveis ideais recomendados.

Além disso, os aeradores devem ser acionados para a homogeneização da coluna de água, ou seja, a mistura da água da superfície com a água do fundo. Dependendo da profundidade da coluna de água do viveiro, a diferença de temperatura da água pode ser de mais de 7°C da água do fundo com a da superfície. Ao acionar os aeradores, você rompe a estratificação térmica e química, podendo até mesmo ganhar um ou dois graus a mais na água, quando a temperatura do ar está mais alta que a temperatura da água. A recomendação é ligar o aerador durante o período mais quente do dia, por poucas horas. Aeradores bem dimensionados e posicionados nos viveiros auxiliam a mistura e a homogeneização correta da água. Para a verificação, basta medir a temperatura da água do fundo e na superfície.

Ficar sempre de olho

A tilápia é conhecida como uma espécie bastante rústica, mas em situações de temperaturas extremas, a susceptibilidade às doenças é maior, principalmente as doenças oportunistas. No inverno, infelizmente, é comum ocorrer mortalidade de peixes. Veja bem: é comum e não “normal”, como muito ouvimos por aí. Mortalidade de peixes não deve ser considerado normal em um cultivo. Observar e monitorar o comportamento dos peixes é também importante, para que se possa fazer um diagnóstico correto, muito antes das grandes perdas acontecer. O peixe dá sinal de que algo está errado e é importante investigar qual (ou quais) o motivo.

Diagnóstico rápido

Quando uma doença acomete o lote de peixes é de suma importância que o piscicultor haja rapidamente, procurando equipe especializada para diagnóstico correto e tratamento indicado. Como, em grande parte das vezes, a causa da mortalidade poderia ser evitada, seria interessante que o olhar do piscicultor não fosse apenas focado no agente que causou a mortalidade, mas sob todos os aspectos que contribuíram para essa perda. Agir, não apenas pontualmente no tratamento da doença, muitas vezes com medicamento, mas também na raiz do problema, ou seja, sobre o sistema de cultivo como um todo, com um olhar mais amplo. Outra dica, em caso de mortalidade, é retirar, imediatamente, os peixes mortos do viveiro e dar a destinação correta, além de proceder a desinfecção dos equipamentos utilizados, como: baldes, puçás, tarrafas, redes, etc.

Citando as principais doenças que causam mortalidades no inverno: fungos (Saprolegniose), parasitoses (Piscinodiníase, principalmente em peixes redondos; Ictioftiríase, notadamente em peixes de couro) e bacterioses (Franciselose). É bastante comum a coinfecção, onde são observados nos peixes alguns patógenos distintos.

Histórico da propriedade

“O conhecimento é a melhor forma de prevenção”! Ter o conhecimento dos patógenos que causaram mortalidades na propriedade nos possibilita tomar atitudes para prevenir a recorrência, além do histórico dos parâmetros de qualidade de água.

Monitoramento da qualidade de água

Pela minha experiência, quando há mortalidade no inverno, normalmente há muitos agentes estressores no viveiro, causando um baixo grau de bem-estar dos peixes. Vou dar um exemplo: níveis altos de amônia total e nitrito, alcalinidade e dureza baixas, manejo alimentar incorreto e, a “gota d’água”, temperatura baixa. Segundo a literatura, em viveiros com temperaturas máximas de água de 13ºC durante 72 horas consecutivas podem apresentar mortalidade de tilápias. Na prática o que vejo é que quando os peixes estão em boas condições de qualidade de água, nutrição e densidade adequados, as perdas são minimizadas.

Baixas temperaturas de água em épocas de estiagem ou chuvas intensas também desencadeiam níveis inadequados dos parâmetros de qualidade de água. Para isso, é importante que o monitoramento desses parâmetros seja feito corretamente: oxigênio dissolvido, temperatura da água e do ar, duas vezes por dia; transparência da água, três vezes por semana; semanalmente, pH (sempre no início e ao final do dia), amônia e nitrito; alcalinidade e dureza, quinzenalmente. Medir os parâmetros e anotá-los, gerando um histórico. Costumo dizer que, o monitoramento da água é como se fosse uma “bola de cristal”: você pode prever o “futuro”, com ele você consegue observar as tendências, e, então, antecipar-se, corrigindo os parâmetros, prevenindo doenças e perdas de peixes. O uso de biorremediadores, antes e durante o inverno, pode contribuir para a manutenção da qualidade do fundo do viveiro, níveis adequados de nitrogenados, não esquecendo da correção dos níveis de oxigênio dissolvido e alcalinidade. Seu uso é recomendado, principalmente, em viveiros com histórico de excesso de matéria orgânica no fundo do viveiro e concentrações de nitrogenados elevadas (amônia e nitrito).

Ração

O uso de rações de qualidade adequadas para a espécie, e para a fase, com proteína bruta e extrato etéreo corretos, níveis de vitaminas e minerais, bem como a quantidade diária ofertada auxiliam na manutenção da saúde e bem-estar dos peixes nos momentos de desafios. Sabemos que o metabolismo dos peixes diminui com a queda de temperatura da água, portanto, as quantidades de ração diárias devem ser ajustadas. O monitoramento da temperatura da água e uso de tabelas de recomendação de ração diária pode contribuir para a saúde e bem-estar dos peixes direta e indiretamente, além de economia, pois, para temperaturas de água de 16 a 20°C, a quantidade diária de ração é cerca de 30% da quantidade para a faixa de temperatura de 20 a 24°C. Excesso de ração, afora o desperdício de dinheiro, faz com que os parâmetros de qualidade de água piorem. A recomendação para the melhor aproveitamento da ração durante os dias com temperatura da água entre 16 a 20°C seria alimentação no início da tarde, período mais quente do dia. E, quando a temperatura da água for inferior a 15°C, não é recomendado alimentar as tilápias. Atualmente, há marcas de ração com soluções para fases de maior desafio, como no inverno.

Imunoestimulantes

Falando em medicamentos, vejo com muita frequência, em grupos de WhatsApp, a indicação de antibióticos, muitos deles não autorizados para uso em peixes, para o tratamento de doenças tais como fungos e parasitoses, cujo “diagnóstico” é feito apenas por uma foto. Assunto polêmico e bastante preocupante. Sem comentar sobre a resistência bacteriana, que pode afetar a saúde dos animais, humanos e meio ambiente (chamada de saúde única). Use somente antibiótico quando necessário, prescrito por médico veterinário, atentando às dosagens, tempo de uso e carência. A cada ano, com o avanço da ciência e da tecnologia e a preocupação com a resistência bacteriana, o lançamento de ferramentas surge para estimular a imunidade dos peixes, muitas delas com ação curativa, além da preventiva. Alguns suplementos podem contribuir para a prevenção de doenças: vitaminas C e E, aminoácidos, pré e probióticos, simbióticos, óleos essenciais, ácidos orgânicos, entre outros aditivos, além das vacinas que são também uma excelente ferramenta para prevenção das doenças.

Não mexer com os peixes

Não realizar povoamentos de alevinos e juvenis com temperaturas inferiores a 18°C, não fazer repasse de peixes e não fazer despesca parcial selecionando os peixes maiores para a venda. Qualquer lesão causada, mesmo que apenas numa escama, é porta de entrada para os patógenos oportunistas que estão presentes da água. Lembrando que, a imunidade dos peixes é bastante afetada pelas baixas temperaturas. Logo após as biometrias, caso sejam realizadas, pode-se utilizar sal para estímulo da produção de muco que, ademais de ser uma barreira física de proteção é, também, uma barreira química. O sal pode auxiliar, igualmente, na reposição de sais devido ao estresse sofrido durante a pesagem.

Moral da história

Não há fórmula mágica: a prevenção continua sendo a melhor forma de evitar perdas em temperaturas extremas. Portanto, um bom planejamento do cultivo é importante! Com o planejamento podemos ter melhores resultados, principalmente quando é observado o histórico dos parâmetros de qualidade de água, das perdas, das doenças, de acordo com a realidade de cada um dos viveiros. Sigo acreditando que a capacitação e o acesso à informação também são importantes, pois doenças emergentes têm aparecido na tilapicultura brasileira, causando grandes perdas econômicas e, precisamos, nós, técnicos e produtores, estarmos sempre atentos aos desafios que encontramos em campo.

Espero que tenham gostado das dicas! Até o próximo artigo!

Coluna publicada originalmente em 27 de junho de 2023

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