Diretrizes e prioridades da indústria de nutrição aquícola perante os tempos de COVID

Hoje abordarei as diretrizes e prioridades da indústria de nutrição aquícola perante os tempos de COVID com base nas minhas experiências em projetos e em contatos com profissionais ao longo da cadeia produtiva aquícola, especialmente na Ásia e Oceania, e que nem sempre refletem a realidade da indústria de ração em todas regiões.

Em momentos de incertezas, uma das primeiras ações institucionais consiste na redução de despesas, o que pode refletir de diversas maneiras, principalmente na reorganização das prioridades e/ou redução do orçamento dedicado à pesquisa. Acredito que, assim como eu, vários leitores também tiveram oportunidades de projetos de pesquisa adiadas ou canceladas. Nesse contexto, surgem dúvidas sobre as prioridades de pesquisa da indústria de nutrição aquícola. E também algo para refletir sobre o quão essencial são nossos projetos de pesquisa – tema que abordarei numa futura coluna.

Um dos principais objetivos das empresas de ração é a consistência de qualidade de seus produtos. Nos momentos em que os preços dos ingredientes estão instáveis e tendem a aumentar, ocorre uma busca por flexibilização nas formulações. Ou seja, diminuir a dependência de ingredientes chaves que são mais caros, aumentar o portfólio de matérias-primas, e ao tempo manter o desempenho dos organismos aquáticos e o valor nutriticional do produto final. Para tal, as empresas estão focando em pesquisas para avaliar diferentes combinações de ingredientes e testar novas matérias-primas e aditivos, sempre mantendo o preço da ração como um dos fatores decisivos.

Além disso, a origem dos ingredientes, que influencia os custos de transporte, e consequente sustentabilidade em termos de emissões de CO2 são fatores importantes¹. Para mais informações sobre as características dos ingredientes e a importância das mesmas, recomendo a leitura do artigo revisão Glencross 2020². Assim, existe uma diretriz em priorizar ingredientes locais ao invés dos mais tradicionais, porém geograficamente distantes. Empresas multinacionais instaladas na Austrália, por exemplo, estão atualmente utilizando de 60 a 80% de matérias-primas australianas em suas formulações.

Infelizmente, pesquisas mais básicas e de alto risco são alocadas para baixo na lista de prioridades por não terem implementação comercial imediata. Porém, momentos de incerteza também devem ser vistos como oportunidades. Portanto, devemos ser criativos e alinhar ideias de pesquisa e desenvolvimento com essas diretrizes para continuar o avanço da atividade aquícola. Vale ressaltar que nenhum impacto positivo é realizado isoladamente, assim a indústria de ração faz sua parte e, juntamente com as outras ao longo da cadeia produtiva, fazem com que a atividade como um todo progrida nesses momentos delicados.

Espero ter trazido algo novo para vocês leitores e ao mesmo tempo ter feito jus a todos nós, profissionais aquícolas, que estamos trabalhando duro nesses últimos tempos buscando manter o progresso da aquicultura.

¹ Escobar N., et al., 2020. Spatially-explicit footprints of agricultural commodities: Mapping carbon emissions in Brazil’s soy exports. Global Environmental Change https://doi.org/10.1016/j.gloenvcha.2020.102067

² Glencross, B.D. 2020. A feed is still only as good as its ingredients: An update on the nutritional research strategies for the optimal evaluation of ingredients for aquaculture feeds. Aquaculture nutrition https://doi. org/10.1111/anu.13138

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