Diferentes dietas na mesa dos ouriços
Durante o experimento de 40 dias, os pesquisadores avaliaram três formulações alimentares distintas para os ouriços-do-mar. A ração Dieta 1 (D1) consistiu em uma fórmula inédita totalmente livre de farinha e óleo de peixe, baseada principalmente em macroalgas. A Dieta 2 (D2) combinou diferentes espécies de macroalgas e microalgas, enquanto a Dieta 3 (D3) se caracterizou pela inclusão de ingredientes de origem animal, como farinhas de peixe, lula e krill, resultando em maior densidade energética e teor de amido. O objetivo foi mapear se as variações na alimentação do nível trófico superior alterariam o desempenho e a qualidade nutricional das poliquetas extratoras localizadas abaixo.
Respostas assimétricas entre as espécies
Os resultados biométricos revelaram que os ouriços-do-mar não apresentaram diferenças significativas no crescimento somático ou gonadal entre os tratamentos alimentares. Em contrapartida, as poliquetas demonstraram um ganho de peso substancial em todos os grupos, registrando taxas de crescimento consideravelmente superiores às de estudos anteriores com resíduos processados. O melhor desempenho em biomassa ocorreu nos organismos que receberam os rejeitos da Dieta 3, um efeito diretamente associado à maior disponibilidade de energia digestível e carboidratos presentes nas fezes geradas por essa ração rica em ingredientes animais.
Melhoria nutricional e síntese de ácidos graxos
A grande surpresa do estudo concentrou-se no perfil de ácidos graxos das poliquetas. Aquelas que consumiram os resíduos da Dieta 1 (isenta de insumos de peixe) exibiram uma melhora marcante em seus teores de compostos poli-insaturados. Houve um aumento significativo nas concentrações de ácido eicosapentaenóico (EPA) e ácido docosahexaenóico (DHA), além de uma excelente razão n-3/n-6. Esse fenômeno evidencia a capacidade livre da Hediste diversicolor de realizar a biotransformação e o enriquecimento nutricional de resíduos de baixo valor por meio de processos de biossíntese celular. Quanto à maturação sexual, as dietas não geraram impactos estatisticamente significativos no desenvolvimento de gametas.
Caminho para uma aquicultura circular
A pesquisa conclui que o modelo de policultivo passivo é altamente eficiente para promover a economia circular e a sustentabilidade no setor de equinodermes. Ao converter excreções orgânicas em biomassa de poliquetas de alto valor comercial, o sistema mitiga o impactado ambiental dos efluentes e gera um ingrediente valioso para rações aquáticas. Essa estratégia reduz de forma direta a dependência global por óleo de peixe selvagem e diversifica a receita das fazendas produtoras.
Fonte: Sea urchin and polychaete integration in IMTA as a model for sustainable waste valorisation
