O desafio da biossegurança e o uso de membranas
A carcinicultura superintensiva convencional esbarra na dificuldade de remover partículas finas e microrganismos patogênicos, que sobrecarregam os biofiltros e ameaçam a saúde dos animais. Para superar esse obstáculo, os cientistas integraram membranas de ultrafiltração de polissulfona ao sistema de recirculação. Essa barreira física realiza o pré-tratamento completo da água do mar, retendo mecanicamente sólidos suspensos, bactérias e vírus antes mesmo que a água entre nos tanques de cultivo.
Estrutura experimental e manejo rigoroso
O estudo utilizou quatro tanques experimentais de 20 metros quadrados, estocados com uma densidade superintensiva de 400 pós-larvas por metro quadrado. O efluente gerado passou por uma unidade de tratamento biológico sequencializada, composta por compartimentos de remoção de sólidos, desnitrificação anóxica, nitrificação aeróbica e separação de lodo. O manejo diário incluiu a sifonagem de resíduos, adição controlada de hidróxido de cálcio para estabilizar a alcalinidade, sacarose para ajustar a relação carbono-nitrogênio e aplicação semanal de bactérias nitrificantes.
Parâmetros ambientais e desempenho zootécnico
Durante os 100 dias de monitoramento, os principais parâmetros de qualidade da água permaneceram em faixas seguras para a espécie. O oxigênio dissolvido foi mantido de forma constante acima de 4 mg/L e os compostos nitrogenados perigosos, como a amônia total e o nitrito, foi controlado de maneira eficiente pela biofiltração. Embora a temperatura média da água tenha ficado ligeiramente abaixo do ideal em alguns períodos devido a fatores climáticos regionais, o desenvolvimento dos camarões não foi prejudicado.
Ao final do ciclo, os resultados zootécnicos confirmaram a alta eficiência do sistema integrado. O camarão-branco-do-pacífico alcançou uma taxa de sobrevivência expressiva de 86,85%. O ganho de peso diário foi de 0,25 gramas, resultando em um peso corporal médio final de 25,09 gramas por animal. A produtividade média obtida alcançou 4,71 quilos por metro quadrado, com uma conversão alimentar altamente eficiente de 1,57.
Eficiência hídrica e o futuro da atividade
A maior inovação prática do modelo foi a sustentabilidade operacional obtida por meio da recirculação contínua. O sistema operou com uma taxa de renovação diária de água inferior a 2%, limitando a reposição apenas às perdas inevitáveis por evaporação e sifonagem de sedimentos. Esse índice reduz drasticamente a dependência de grandes volumes de captação externa e zera o descarte contínuo de efluentes poluentes no meio ambiente. Os autores concluem que a associação de membranas de ultrafiltração ao tratamento biológico consolida uma alternativa madura e viável para a expansão sustentável da carcinicultura industrial de alta densidade.
