Impacto severo na produção de bivalves
Os cientistas observaram que a salinidade superficial caiu de 6 a 7 psu abaixo das médias históricas. Em Santa Catarina, as densidades da microalga tóxica atingiram 68.200 células por litro em julho, paralisando 17 das 19 principais áreas de cultivo de moluscos. Análises químicas indicaram que 61% das amostras de mexilhões Perna perna e 43% de ostras Crassostrea gigas excederam os limites regulatórios de toxinas diarreicas, alcançando concentrações de até 4140 e 820 microgramas por quilo, respectivamente. No Paraná, a abundância chegou a 9760 células por litro, motivando interdições preventivas nos cultivos da ostra nativa Crassostrea gasar.
Mapeamento por satélite e gatilhos tróficos
Imagens de alta resolução dos satélites Sentinel-2 e Sentinel-3 permitiram mapear as fases da floração ao longo da costa sul-brasileira. Inicialmente, registrou-se um florescimento massivo do ciliado Mesodinium rubrum, presa essencial para o desenvolvimento do dinoflagelado mixotrófico. A proliferação do organismo nocivo foi impulsionada por essa disponibilidade de alimento associada à forte estratificação da água, estabelecida pelo escoamento recorde da Lagoa dos Patos sob a atuação de ventos persistentes que transportaram a massa de água doce para o norte.
Predadores naturais controlam o surto
O estudo revelou que o colapso da floração tóxica decorreu da ação de predadores microscópicos na rede trófica. Dados de campo e de satélite flagraram uma imensa mancha do dinoflagelado heterotrófico Noctiluca scintillans estendendo-se por 270 quilômetros. Testes em laboratório confirmaram o papel controlador da Noctiluca scintillans, cuja presença reduziu significativamente as populações da alga nociva por pastejo direto. Os resultados demonstraram que o predador ingere as células nocivas e retém temporariamente cerca de 15,2 picogramas de ácido ocadaico por indivíduo, agindo como um vetor de toxinas na cadeia alimentar pelágica.
Gestão de riscos face às mudanças climáticas
Segundo os autores, a magnitude deste evento alerta para a vulnerabilidade da aquicultura costeira diante de distúrbios hidrológicos extremos associados às mudanças climáticas globais. A equipe conclui que os sistemas de monitoramento sanitário precisam evoluir além da contagem isolada de espécies nocivas. Torna-se indispensável incorporar ferramentas de sensoriamento remoto e avaliar a dinâmica de organismos tróficos correlacionados, como Mesodinium e Noctiluca, para aprimorar a previsibilidade e a resiliência da produção de moluscos na região.
