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Biossensor baseado em microagulhas para monitoramento em tempo real do frescor do pescado

Cientistas de Melbourne (Austrália), liderados pela Universidade Monash em colaboração com a Universidade Deakin, publicaram um estudo que descreve o desenvolvimento do primeiro biossensor eletroquímico baseado em microagulhas, chamadas microneedle arrays (MNA), projetado especificamente para o monitoramento frescor do peixe em tempo real.A tecnologia, publicada na revista American Chemical Society Sensors (ACS Sensors), representa um avanço significativo no controle de qualidade de alimentos, sobretudo porque os peixes são altamente vulneráveis à oxidação e à deterioração microbiológica. O sensor monitora diretamente a hipoxantina (Hx), um composto resultante da degradação do trifosfato de adenosina (ATP) após a morte do peixe, amplamente validado como marcador precoce de deterioração, sendo fundamental para avaliações rápidas e precisas.

Os métodos tradicionais utilizados para determinar Hx, como a cromatografia líquida de alta eficiência (High-Performance Liquid Chromatography, HPLC), espectrometria de massa acoplada à cromatografia líquida (Liquid Chromatography-Mass Spectrometry, LC-MS) e ensaios imunoenzimáticos do tipo ELISA (Enzyme-Linked Immunosorbent Assay) apresentam limitações importantes: necessidade de instrumentação sofisticada, operadores altamente treinados e preparação extensiva das amostras, incluindo homogeneização, filtração e centrifugação. Mesmo biossensores de gerações anteriores ainda dependiam desses processos complexos. A abordagem por microagulhas MNA elimina integralmente essa necessidade ao permitir medições diretas dentro do tecido muscular, convertendo a análise em um procedimento rápido, portátil e adequado para aplicações em campo e ao longo das cadeias de suprimentos.

Desenvolvimento e funcionamento do biossensor

O biossensor é composto por uma matriz de microagulhas MNA produzida por técnicas de micro-fabricação avançadas, como polimerização de dois fótons e moldagem em polidimetilsiloxano (Polydimethylsiloxane, PDMS). Essa estrutura é posteriormente metalizada para formar os eletrodos essenciais à detecção eletroquímica. Ao serem pressionadas contra a superfície do peixe, as microagulhas penetram suavemente no tecido, permitindo contato direto com o ambiente interno sem danos significativos à estrutura da carne.

A superfície das microagulhas é funcionalizada com azul da Prússia (Prussian Blue, PB), quitosana, nanopartículas de ouro (gold nanoparticles, AuNPs) e a enzima xantina oxidase (xanthine oxidase, XO). Durante a detecção, a XO catalisa a conversão da hipoxantina (Hx) em xantina e peróxido de hidrogênio (H₂O₂). O PB atua como catalisador eficiente para a redução eletroquímica desse H₂O₂, permitindo que o sensor registre, de maneira rápida e precisa, a concentração de Hx no tecido do peixe. Essa abordagem elimina totalmente a necessidade de pré-tratamento da amostra e reduz significativamente o tempo de análise, tornando o processo ideal para testes em tempo real e no local.

Diagrama da matriz de microagulhas MNA e aplicação do biossensor eletroquímico em filé de peixe
Estrutura do biossensor com matriz de microagulhas e demonstração da aplicação no tecido do peixe para análise de frescor.

Desempenho analítico e validação

Segundo os pesquisadores, o biossensor mostrou desempenho analítico notável, incluindo tempo de resposta em segundos. O dispositivo apresentou excelente sensibilidade e seletividade e foi capaz de detectar aumentos de Hx antes mesmo de qualquer manifestação visual ou odorífera de deterioração. Essa capacidade de identificar alterações bioquímicas em fase inicial é fundamental, já que a hipoxantina se eleva muito antes de o pescado apresentar sinais sensoriais detectáveis.

Nos experimentos com amostras reais, o sensor foi utilizado ao longo de um período de 48 horas para monitorar peixes armazenados sob condições de deterioração natural. Nesse intervalo, o biossensor detectou de forma consistente o aumento progressivo da Hx, resultado que se correlacionou diretamente com o processo de degradação. As medições foram comparadas com o desempenho do kit comercial Amplex™ Red Assay – considerado referência para quantificação de H₂O₂ – e os valores obtidos foram extremamente semelhantes, confirmando a precisão e a robustez da tecnologia. Os mesmos ressaltaram que essa abordagem tem potencial para transformar os testes de alimentos ao torná-los mais rápidos, inteligentes e acessíveis em toda a cadeia de suprimentos.

Aplicações e potencial de mercado

A tecnologia MNA pode revolucionar testes de qualidade em ambientes industriais, logísticos e de varejo, proporcionando uma alternativa rápida, de baixo custo e altamente precisa. Por permitir avaliação direta e imediata, o biossensor é especialmente útil em situações que exigem respostas rápidas, como inspeções sanitárias ou monitoramento em tempo real durante o transporte do pescado. A identificação precoce da deterioração, antes do aparecimento de sinais sensoriais, oferece vantagens decisivas para evitar perdas, garantir segurança alimentar e melhorar a gestão da qualidade ao longo da cadeia do frio.

A capacidade de realizar testes portáteis, sem necessidade de preparo da amostra e com alta sensibilidade, abre caminho para ferramentas eficientes e economicamente viáveis em cenários de testes descentralizados. A tecnologia também favorece intervenções preventivas, reduzindo riscos e custos associados à comercialização de produtos deteriorados.

Conclusões

O estudo apresentou o primeiro biossensor eletroquímico baseado em microagulhas para detecção direta de hipoxantina em peixes, eliminando completamente a necessidade de preparo de amostras. O sensor demonstrou alta sensibilidade, seletividade, estabilidade e desempenho compatível com métodos laboratoriais convencionais, mas com a vantagem de permitir análises rápidas e em campo. O trabalho evidenciou o potencial da tecnologia MNA para monitoramento de qualidade de alimentos, especialmente em aplicações industriais, varejistas e de inspeção sanitária. Os autores observaram que versões futuras podem ser integradas a sistemas portáteis ou wireless, permitindo acompanhamento contínuo de frescor ao longo da cadeia produtiva.

A equipe de pesquisa já iniciou o processo de buscar parceiros de comercialização da tecnologia, em colaboração com a Monash Innovation, dando sequência ao pedido de patente provisória recentemente depositado. O grupo prevê a possibilidade de integrar o biossensor a dispositivos portáteis ou a sistemas wireless para monitoramento contínuo em tempo real, facilitando sua adoção em operações industriais e logísticas de larga escala.

Referência

Khazaei, M. et al. (2025). Enhancing Food Safety with Microneedle-Based Biosensors: Real-Time Monitoring of Fish Freshness. ACS Sensors, Dec. 3, 8 p. DOI: 10.1021/acssensors.5c01637.

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