Muito se fala sobre consumo de pescado, poucos são os dados disponíveis, e a diversidade dos números surpreende! Afinal, como saber realmente a quantidade de pescado que seja no prato do consumidor? Metas de consumo de pescado são essenciais, mas só fazem sentido quando traduzidas e adaptadas para a realidade local. No contexto brasileiro, essa discussão ainda é muito difusa.
Quando se fala em consumo de pescado, os números muitas vezes confundem mais do que esclarecem. A FAO estima que, em 2024, a disponibilidade global média de alimentos aquáticos de origem animal foi de 21,3 kg por pessoa1. No Brasil, são frequentemente apresentados valores entre 5 e 10 kg por habitante ao ano, quase sempre acompanhados da afirmação de que a FAO ou, às vezes, a OMS recomendaria o consumo anual de 12 kg. O problema é que esses números representam informações distintas
As estimativas de produção e disponibilidade são geralmente expressas em equivalente de peso vivo, isto é, com base no peso do animal inteiro no momento da captura ou da despesca. Isso permite acompanhar o tamanho e a evolução do setor, mas não revela quanto pescado efetivamente chega ao prato do consumidor, pois o pescado não é consumido desta forma.

No Brasil, o Boletim Estatístico da Pesca e Aquicultura estima que foram produzidas 1,36 milhão de toneladas de pescado em 20242. Dividido pela população, esse volume corresponde a aproximadamente 6,40 kg por habitante. Quando exportações e importações entram na conta, o valor sobe para cerca de 7,27 kg por habitante ao ano. Esses números ajudam a descrever a oferta nacional, mas não devem ser interpretados diretamente como consumo. Entre o peso do animal vivo e o alimento consumido existem perdas ao longo da cadeia, bem como partes não comestíveis. Além disso, os produtos do comércio exterior precisam ser normalizados para uma mesma base de peso. Uma análise dos dados da POF 2017/2018, por exemplo, estimou uma aquisição domiciliar de 5,66 kg por habitante ao ano3. Embora seja uma medida mais próxima da realidade dos domicílios, ela não desconta necessariamente todas as partes não consumidas e apresenta limitações relacionadas à sazonalidade. Todos esses indicadores são úteis e importantes, mas respondem a perguntas diferentes e precisam ser interpretados com cautela.
E a questão dos 12 kg?
O Relatório Técnico 916 da OMS/FAO (2002), é uma das primeiras recomendações globais sobre o consumo regular de pescado e sua associação com a proteção cardiovascular4. O documento recomenda uma ou duas porções por semana, equivalentes a uma oferta de 200 a 500 mg de EPA e DHA. Em 2010, a FAO adotou como referência para adultos a ingestão diária de 250 mg desses nutrientes5. Portanto, a meta nutricional está relacionada à quantidade de EPA e DHA fornecida, e não simplesmente ao peso de pescado consumido.
Para compreender essa diferença, basta acompanhar o pescado da água até chegar ao prato. Se os 7,27 kg da conta anterior fossem utilizados como exercício e fosse considerado um rendimento comestível de 50%*, restariam 3,64 kg por ano, ou aproximadamente 70 g por semana.
Considerando uma concentração de 590 mg de EPA e DHA por 100 g (para a média das cinco espécies mais produzidas no país)2, esse volume forneceria cerca de 60 mg por dia. Com a inclusão do salmão (principal espécie importada), o valor subiria para cerca de 85 mg. Nesses dois cenários, alcançar a referência de 250 mg diários exigiria uma oferta superior a 20 kg por habitante ao ano em equivalente de peso vivo**.
O contexto ajuda a entender essa diferença. Uma porção de tilápia pode fornecer cerca de 40 mg de EPA e DHA, enquanto uma porção de tambaqui pode fornecer 25 mg. A sardinha pode chegar a 1.400 mg e o salmão a 1.900 mg. Para uma população que consome principalmente sardinha e salmão, 12 kg por ano em equivalente de peso vivo podem ser mais do que suficientes. Quando o consumo é mais diversificado, outra métrica se torna necessária, pois são inúmeras as espécies disponíveis para consumo, e a diversidade nutricional levando em consideração as espécies, é enorme!.
Consumir a mesma quantidade de pescado não significa receber a mesma quantidade de nutrientes. Uma referência baseada apenas no volume consumido, como a dos 12 kg, não pode ser interpretada como uma medida universal de adequação de EPA e DHA.
Isso não significa que espécies com menor teor de ômega-3 tenham menor importância. Elas podem contribuir com vitamina B12, vitamina D, selênio e outros nutrientes. A digestibilidade e a bioacessibilidade da proteína do pescado também podem favorecer a competitividade nutricional6. O papel desses alimentos para comunidades tradicionais e seu potencial em sistemas de produção mais sustentáveis são outros aspectos que podem ser incorporados às métricas utilizadas pelo setor.
Por isso, traçar uma meta de consumo exige compreender a cadeia local. A meta pode ser aumentar a ingestão de EPA e DHA, enfrentar uma deficiência de micronutrientes, ampliar a oferta de proteína de qualidade ou diversificar a alimentação. Depois, é necessário conhecer a composição nutricional e o rendimento das espécies disponíveis. Só então um aporte de contribuição para um nutriente em inadequação pode ser traduzido em porções comestíveis.
Essa perspectiva também abre uma agenda concreta para a aquicultura. A escolha das espécies, a formulação das rações, o tamanho de abate e o desenvolvimento de produtos com maior rendimento podem aumentar a entrega de nutrientes de maneira mais eficiente.
O objetivo não é abandonar as metas de consumo, mas torná-las realmente factíveis. Se a prioridade for atingir a recomendação de EPA e DHA, 12 kg em equivalente de peso vivo provavelmente serão insuficientes para o perfil médio das espécies atualmente produzidas. Mais importante do que perguntar se o país atingiu determinado número de quilogramas é saber quais espécies chegam às pessoas e quais nutrientes elas efetivamente fornecem. A relação entre saúde e consumo de pescado também envolve outros fatores que ainda precisam ser melhor compreendidos7.
E a pergunta que não quer calar é…. afinal, quanto de pescado, e qual o aporte de nutrientes realmente chega ao prato do brasileiro?
*Esse rendimento depende da espécie, do tamanho e do corte.
**Essa estimativa é apenas um exercício para demonstrar como o resultado muda de acordo com as espécies incluídas. Ela não representa uma nova estimativa de consumo nem uma meta nacional.
Referências
- Food and Agriculture Organization of the United Nations. The State of World Fisheries and Aquaculture 2026. Blue Transformation: turning vision into impact. Rome. FAO. 2026.
- Brasil. Ministério da Pesca e Aquicultura. Boletim Estatístico da Pesca e Aquicultura 2023-2024. Brasília. 2025.
- Wagner YG, Coelho AB, Travassos GF. Análise do consumo domiciliar de pescados no Brasil utilizando dados da POF 2017-2018. Revista de Economia e Sociologia Rural. 2023. 61(3):e250494.
- World Health Organization. Diet, nutrition and the prevention of chronic diseases. WHO Technical Report Series 916. Geneva. 2002.
- Food and Agriculture Organization of the United Nations. Fats and fatty acids in human nutrition. FAO Food and Nutrition Paper 91. Rome. 2010.
- Presenza, L., Donado-Pestana, C. M., de Jesus Andrade, L., Mantovam, V. B., Dos Santos-Donado, P. R., Sforça, M. L., de Freitas Fabrício, L. F., Galvão, J. A., de Souza Vieira, T. M. F., Erger, I. C., Fiamoncini. In vitro digestibility and nutrient bioaccessibility of Brazilian native fish (tambaqui and sardine), chicken, and beef under common cooking methods. Food Research International. 2026. 236:119199.
- Presenza L, Papadopoulos D, Churchward-Venne TA, Fiamoncini J. Modulation of postprandial metabolism by muscle foods: physiological and health implications beyond nutritional composition. Nutrition Reviews. 2026. nuag094.
