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    De susto a oportunidade: pesquisadores da UFSC explicam o surgimento das “ostras verdes” em SC

    Nas últimas três semanas, maricultores da Baía Sul, em Florianópolis (SC), foram surpreendidos por uma alteração inusitada em seus cultivos: ostras com coloração esverdeada. Longe de representar um risco sanitário, o fenômeno foi identificado por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) como a proliferação de uma microalga inofensiva e altamente nutritiva. O evento não apenas assegura a segurança alimentar, mas também agrega valor de mercado aos moluscos, abrindo novas oportunidades científicas e comerciais para a aquicultura regional.

    Iguaria de alto padrão internacional

    O que inicialmente gerou dúvidas entre clientes (que chegaram a relatar aos produtores um aspecto “mofado” nos moluscos) é, na verdade, um cobiçado diferencial de mercado. A coloração inusitada é provocada pela proliferação de diatomáceas.

    Segundo as análises iniciais, a microalga pertence à espécie Haslea ostrearia. Esse organismo produz um pigmento azul chamado marennina, que confere o tom esverdeado ao interagir com o molusco, enriquecendo nutricionalmente ostras, vieiras e mexilhões.

    Imagem microscópica de uma microalga do tipo diatomácea, com formato alongado e coloração translúcida e amarelada no centro, e bordas azuladas.
    Imagem de microscópio da microalga do gênero Haslea observada na Baía Sul. (Foto: UFSC)

    O fenômeno é um velho conhecido da alta gastronomia europeia. Na região de Marennes-Oléron, na França, as huîtres vertes (ostras verdes) possuem a certificação Label Rouge do governo francês, sendo comercializadas como uma iguaria de qualidade superior.

    Ostra crua aberta exibindo interior com forte coloração verde, junto ao selo vermelho de certificação Label Rouge.
    Foto de anúncio de ostra verde de Marennes-Oléron (na costa atlântica da França, principal região produtora de ostras da Europa). Ganham essa coloração durante o processo nas “claires” (tanques de argila), garantindo a certificação de qualidade Label Rouge. (Foto: Les Huîtres Rousselot)

    Investigação e monitoramento ambiental

    O engenheiro de Aquicultura e pesquisador da UFSC, Gabriel Filipe Faria Graff, explica que a ocorrência de ostras verdes em Santa Catarina é rara, tendo sido observada em apenas duas ocasiões há mais de dez anos. A atual floração pegou os cientistas de surpresa.

    A equipe do Laboratório de Biotecnologia e Saúde Marinha (LaBIOMARIS) partiu agora para novas investigações. A primeira etapa é a análise molecular para cravar a identificação exata da espécie encontrada nas águas catarinenses.

    O passo seguinte é entender o gatilho ambiental do evento. “A ideia é observar aspectos como as correntes marítimas, ondas de calor, vento, condições ambientais em geral e cruzar essas informações para verificar o que pode ter favorecido a repetição do fenômeno”, detalha Gabriel.

    O objetivo futuro dos cientistas é utilizar esses dados climáticos e oceanográficos para viabilizar as condições ideais de cultivo da microalga em ambiente controlado de laboratório.

    Biotecnologia e potencial farmacêutico

    A descoberta recente teve início no campo. O produtor Vinicius Ramos, da Fazenda Marinha Paraíso das Ostras, acionou os pesquisadores após identificar a coloração nas lanternas de cultivo da Baía Sul. O fenômeno, até o momento, não apareceu na Baía Norte.

    As análises realizadas em parceria com o Laboratório de Ficologia (LAFIC) da UFSC confirmaram a presença do gênero Haslea, reativando o entusiasmo da comunidade científica local.

    “Essa microalga tem grande potencial inclusive para aplicações biotecnológicas, como na produção de alimentos e até na área farmacêutica”, ressalta o professor Rafael Diego da Rosa, coordenador no Brasil da rede de pesquisa EcoHealth4Sea.

    Os trabalhos de pesquisa e monitoramento continuam em andamento, reunindo os especialistas do LaBIOMARIS e do LAFIC, incluindo os professores Leonardo Rubi Rörig, Carlos Yure Barbosa Oliveira e a pesquisadora Bruna Rodrigues Moreira.

    Quatro pesquisadores sorrindo e posando para foto em um laboratório, em frente a prateleiras com frascos contendo líquidos de diferentes cores.
    Pesquisadores de diferentes laboratórios da UFSC uniram esforços para identificar a microalga durante a nova ocorrência do fenômeno raro: professor Leonardo Rubi Rörig, pós-doutoranda Bruna Rodrigues Moreira, doutorando Gabriel Filipe Faria Graff e professor Carlos Yure Barbosa Oliveira. (Foto: UFSC)

    Fonte da matéria: Notícias UFSC / Ana Paula Lückman

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