Resíduos urbanos: poluição por cocaína faz salmões nadarem até 90% mais

A presença de resíduos de entorpecentes em corpos hídricos já não é uma novidade, mas um estudo internacional recém-publicado na revista Current Biology trouxe dados alarmantes (e curiosos) sobre como isso afeta a vida aquática. Pesquisadores monitoraram jovens salmões-do-atlântico (Salmo salar) em um lago natural na Suécia e descobriram que a exposição a derivados da cocaína faz com que os peixes nadem até 90% a mais e se dispersem por áreas consideravelmente maiores do que o normal.
Infográfico científico resumindo o estudo sobre o impacto da cocaína e benzoilecgonina no comportamento do salmão-do-atlântico. Inclui as seções de Métodos (com tratamentos e mapa), Resultados (com acúmulo no cérebro e dispersão no lago) e Conclusão (com ícone de efluente).
Infográfico detalhando a metodologia, resultados e conclusão do estudo publicado na Current Biology sobre o efeito de resíduos de cocaína no salmão.

A pesquisa em campo

O experimento foi conduzido no Lago Vättern, o segundo maior corpo hídrico da Suécia.

Os cientistas rastrearam 105 jovens salmões (Salmo salar) ao longo de oito semanas, utilizando tecnologias de telemetria acústica para avaliar seus padrões espaciais.

Os animais foram divididos em três grupos: um exposto à cocaína, outro à benzoylecgonina (o principal metabólito da droga eliminado pela urina humana) e um grupo de controle livre de substâncias.

Metabólito causa mais impacto que a droga original

Curiosamente, o resultado mais expressivo não foi provocado pela cocaína em si, mas pela benzoylecgonina.

Os peixes expostos a esse resíduo metabólico nadaram até 1,9 vez mais por semana em comparação aos animais do grupo de controle.

Além disso, a dispersão geográfica desses indivíduos aumentou de forma substancial, chegando a se afastar até 12,3 quilômetros a mais do local inicial de soltura.

Essa descoberta acende um alerta para as metodologias de avaliação de risco ambiental, que costumam focar na toxicidade da droga original e muitas vezes ignoram os metabólitos que ocorrem em maiores concentrações nas águas superficiais.

Consequências para o ecossistema

O aumento drástico na movimentação e no distanciamento dos peixes traz preocupações ecológicas sérias.

Como destacado pelo pesquisador Marcus Michelangeli, um dos autores do estudo: “Para onde os peixes vão determina o que eles comem, quem os come e como as populações são estruturadas”.

Isso indica que a poluição química tem potencial para alterar o uso do habitat, as interações tróficas (alimentares) e os padrões de dispersão populacional na natureza.

Fotografia de um salmão-do-atlântico pulando uma cachoeira em uma corredeira na Escócia, com a cauda de um segundo peixe visível imerso na espuma turbulenta.
Salmão-do-atlântico (Salmo salar) lutando para subir uma cachoeira em sua migração na Escócia, Reino Unido.

Origem do problema e segurança

A contaminação hídrica por esses compostos está diretamente ligada ao consumo humano e à incapacidade de muitas estações de tratamento de esgoto de removerem completamente essas substâncias.

Apesar dos severos efeitos comportamentais observados, os níveis químicos testados refletem a poluição ambiental realista já existente, e os peixes avaliados eram juvenis (smolts).

Não há evidências de risco imediato para a saúde pública no consumo da carne de peixe, mas o impacto ecológico comprovado exige atenção de todo o setor aquícola, pesqueiro e de conservação ambiental.

Salmão-do-atlântico saltando sobre as águas agitadas do açude de Shrewsbury, na Inglaterra, durante a migração para a desova.
Um salmão salta da água na barragem de Shrewsbury, no rio Severn, numa tentativa de subir o rio para desovar. Shropshire, Inglaterra.

Fontes: G1 e Cocaine pollution alters the movement and space use of Atlantic salmon (Salmo salar) in a large natural lake

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