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Tilápia estampa campanha no manto do Peixão em plena Semana do Pescado

Sou santista. Convivo com o apelido de Peixão desde criança, mas ele sempre esteve mais ligado à pesca da Baixada Santista e ao mascote do clube do que à aquicultura. E o mascote nem peixe é. Nos anos 1950, um cartunista da Gazeta Esportiva desenhou uma baleia para representar o time por considerá-la mais imponente que um peixe qualquer. O símbolo pegou e virou estatuto em 2011.

Nesta semana, um peixe de verdade apareceu no manto. E veio da aquicultura.

A Canção Alimentos anunciou nas próprias redes sociais que o uniforme do Santos foi atualizado. Não com uma logo nova. Com uma hashtag: #VaiDeTilápia. A marca abriu mão do próprio nome no espaço que comprou e colocou ali o nome do peixe.

Quem acompanha o setor precisa entender por que isso não é apenas mais um patrocínio.

Reprodução de uma página de jornal antiga com uma charge mostrando uma baleia imponente e texto sobre o Santos FC.
Foto de uma charge da Gazeta Esportiva que popularizou a baleia como símbolo do Santos FC nos anos 1950.

O que mudou de fato

A Canção, marca do grupo GTFoods, patrocina o Santos desde janeiro de 2024. A aplicação sempre ficou na região da omoplata, com contrato válido até o fim de 2026. Em maio deste ano houve um primeiro ajuste, quando a marca trocou o vermelho pelo branco e preto para se alinhar à identidade do clube.

Agora o movimento é de outra natureza. Não se trata de mudar a cor da logo. Trata-se de tirar a logo e colocar uma campanha de consumo no lugar.

É a diferença entre vender uma marca e vender uma categoria. Uma empresa que paga por espaço em uniforme normalmente quer que o torcedor memorize o nome dela. Aqui, o torcedor é convidado a memorizar o produto. O benefício direto vai para a Canção, claro, mas o recado alcança qualquer filé de tilápia que esteja na gôndola ao lado.

O momento escolhido reforça a leitura. A Semana do Pescado 2026 acontece entre 1º e 15 de setembro, conduzida pelo Ministério da Pesca e Aquicultura, estruturada em quatro pilares: saúde, curiosidade, prazer e hábito. Uma das ações da campanha é justamente a criação de rotina, com o mote “Sexta é dia de peixe”. Colocar uma hashtag de consumo em uma camisa de Série A durante essa janela não é coincidência de calendário.

Uma mão segurando uma embalagem de produto congelado de tilápia.
O uso de personalidades influentes no marketing esportivo ajuda a promover o consumo de peixe. (Foto adaptada de: Casa de Carne Nª.Sª de Lourdes)

O precedente carioca

A tilápia estreou no futebol essa semana, mas o pescado já tinha chegado ao futebol antes.

A Frescatto patrocina o Fluminense desde 2015, com um intervalo entre 2018 e 2022, e renovou o contrato em janeiro deste ano até janeiro de 2027. A empresa tem mais de 75 anos de atuação, mais de 1.300 colaboradores e exporta para Canadá, Estados Unidos, México, Japão e China. Também se apresenta como a primeira marca de pescado Carbon Free do Brasil.

Na renovação, o CEO da empresa foi explícito sobre a lógica da parceria. Segundo ele, o trabalho da marca se apoia em sabor, sustentabilidade e saúde, e apoiar o clube aproxima a marca do esporte, que é fundamental para a promoção da saúde em todas as idades e classes sociais.

O raciocínio é bom, mas o formato é o tradicional: marca no peito, marca na memória. O que a Canção fez no Santos é um degrau adiante, porque abre mão da própria assinatura em favor da proteína.

Detalhe da camisa de futebol grená e verde do Fluminense com patrocínio da Frescatto visível.
A Frescatto é uma das marcas de pescado com presença consolidada no futebol brasileiro através do patrocínio ao Fluminense. (Foto: Reprodução/Fluminense)

Por que isso está acontecendo agora

Os números explicam melhor do que qualquer análise de marketing.

A piscicultura brasileira ultrapassou 1 milhão de toneladas em 2025, marca inédita, com crescimento de 4,4% no ano e de quase 60% na década. A tilápia responde por quase 70% desse volume: foram mais de 700 mil toneladas em 2025.

O Paraná lidera essa produção com folga. É onde fica a GTFoods, sediada em Maringá, um grupo que nasceu no frango, entrou na tilápia e projeta faturamento de R$ 10 bilhões até 2035.

Uma cadeia que dobra de tamanho em dez anos chega a um ponto em que produzir deixa de ser o gargalo. O gargalo vira demanda. E demanda de proteína não se constrói com folheto técnico, se constrói com hábito.

Onde o futebol entra

O futebol é o maior distribuidor de hábito cultural que o Brasil tem. Cerveja entendeu isso. Banco entendeu. Casa de apostas entendeu rápido demais.

Pescado nunca esteve nessa mesa. Aparecia na Quaresma, aparecia na Semana Santa, aparecia em campanha institucional de órgão público. Não aparecia no peito de um time de Série A disputando espaço com as maiores marcas de consumo do país.

Estar ali agora significa que a categoria acumulou escala, margem e ambição suficientes para pagar essa conta. É um indicador de maturidade do setor, não um gesto simpático.

O que ainda não dá para afirmar

Sendo honesto: dois casos não são uma tendência. Frescatto e Canção são as duas presenças relevantes de pescado no futebol brasileiro hoje. Procurei outras e não encontrei nada de peso.

Também vale lembrar que isso é publicidade, não política pública. Uma hashtag em uma camisa não muda consumo per capita sozinha. O que ela faz é normalizar a presença do peixe em um ambiente onde ele nunca esteve, e normalização é um trabalho lento que só funciona com repetição.

Se a ação for permanente, vira posicionamento. Se for pontual, vira ativação de campanha e some no dia 16.

Print screen mostrando o feed do Instagram da marca Canção Alimentos com várias postagens sobre tilápia e futebol.
Print da campanha digital da Canção Alimentos no Instagram, promovendo o consumo de tilápia através do esporte.

O registro

Ainda assim, acho que vale o registro.

A camisa branca do Santos carrega uma história específica, e ela passa por Pelé. Ver a palavra tilápia impressa nesse manto, em setembro de 2026, durante a Semana do Pescado, é uma imagem que teria soado improvável para o setor há dez anos.

Como santista, achei divertido. Como quem acompanha aquicultura todos os dias, achei significativo.

O clube que adotou uma baleia por achar o peixe pouco imponente passou esta semana com uma tilápia estampada no peito. Demorou, mas o peixe voltou.

Fontes: Canção Alimentos (Instagram); Fluminense; Gazeta Esportiva; Lance!

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