Sal comum na piscicultura: aliado barato ou risco para peixes nativos?

O Contexto

O sal comum (NaCl) é um dos recursos mais antigos e utilizados na piscicultura mundial. No Brasil, ele se destaca por ser barato, fácil de manusear e seguro tanto para o meio ambiente quanto para quem o aplica. Para produtores de peixes nativos, como o surubim, encontrar dosagens que combatam parasitas emergentes sem estressar excessivamente o animal é o “pulo do gato” para manter a produtividade e a saúde do plantel.

A Descoberta Detalhada

Pesquisas indicam que não existe uma “dose única mágica”, mas sim faixas de segurança que variam conforme o objetivo e a espécie. No caso de juvenis de surubim híbrido infectados pelo parasita Epistylis sp., que causa lesões que lembram feridas vermelhas e prejudicam a venda, banhos terapêuticos de 20 minutos com concentrações de 1,5% a 2,0% (repetidos a cada 48 horas) mostraram-se muito eficazes.

O sal atua por desidratação: ele “puxa” a água do parasita mais rápido do que a do peixe, devido à diferença de tamanho entre eles. No surubim, a dose de 2,0% chegou a alterar índices do sangue, como hematócrito e hemoglobina, indicando que o peixe sente a mudança osmótica, mas consegue tolerá-la bem. Já para o famoso “Íctio” (Ichthyophthirius multifiliis), as recomendações variam de banhos curtos de 3% a tratamentos prolongados com doses menores, dependendo da espécie nativa.

Os Bastidores

Para chegar a esses números, pesquisadores da UEMS em Aquidauana (MS) utilizaram surubins naturalmente infectados. Os peixes passaram por raspagem de muco e análise em microscópio para confirmar a intensidade da infestação antes e depois dos banhos. Curiosamente, até o grupo que não recebeu sal teve uma melhora de 50% na infecção, apenas por estar em um ambiente com limpeza diária e boa qualidade de água, o que mostra que o manejo higiênico é metade da batalha.

A Prática e as Limitações

Na prática, o sal é uma ferramenta poderosa, mas exige cautela:

  • Dose e Tempo: O sucesso depende da combinação entre a concentração e o tempo de exposição. Um banho muito longo em alta concentração pode ser fatal.
  • Espécies Sensíveis: Peixes como o jundiá (Rhamdia quelen) e o pintado (Pseudoplatystoma corruscans) possuem sensibilidades diferentes ao longo da vida, especialmente nas fases de larva e alevino.
  • Estresse: O banho de sal induz estresse osmótico, refletido na alteração de glóbulos brancos (leucócitos).
  • Limitação do Estudo: Os resultados positivos para o surubim foram obtidos em ambiente controlado de laboratório; em grandes tanques de terra, a dinâmica da matéria orgânica pode exigir ajustes no manejo.

Fonte: doi.org/10.1111/are.15616 | doi.org/10.30612/agrarian.v12i46.7155

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