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Nem toda bactéria é inimiga: o papel da microbiota

Na penúltima coluna, mergulhamos no fantástico mundo das bactérias para mostrar que, apesar de frequentemente associadas a doenças, esses microrganismos estão presentes em praticamente todos os ambientes e podem desempenhar funções essenciais para a vida. Claro que os desafios relacionados às bactérias patogênicas na aquicultura existem, e aí é que o calo aperta. Há ainda a questão do uso de antimicrobianos que deve ser feito de forma responsável e atento a evitar resistência bacteriana, o que também já discutimos por aqui.

Mas, se existem bactérias capazes de causar doenças, vale a pena entender melhor como atuam aquelas que jogam no nosso time e podem trabalhar a nosso favor.

Peixes e camarões convivem com microrganismos ao longo de todo o seu ciclo de vida. Eles estão na água, nas superfícies de cultivo e também associados ao próprio animal. Pele, muco, brânquias e trato gastrointestinal possuem uma comunidade microscópica viva e dinâmica, que interage constantemente com o animal e com o ambiente. É a famosa microbiota.

Para não confundir, podemos definir microbiota como a comunidade de microrganismos que vive ali e, quando falamos em microbioma, consideramos também os genes, as funções e as interações dessa comunidade. Simplificando, microbiota é quem está ali e microbioma é toda a comunidade e o que ela é capaz de fazer.

É como se cada animal carregasse uma pequena comunidade em constante transformação. Essa dinâmica pode ser influenciada pela espécie, idade, alimentação, temperatura, salinidade, qualidade da água, sistema de cultivo, estresse e manejo, por exemplo. No fim das contas, o equilíbrio da interação entre animal, ambiente e microbiota influencia a manutenção da saúde.

Quando pensamos no sistema de defesa de um peixe, automaticamente lembramos do sistema imune. Mas, antes que qualquer invasor consiga chegar aos tecidos internos, existe uma barreira física crucial entre o animal e o ambiente: o muco.

O muco presente na pele passa longe de ser apenas uma camada de proteção mecânica. Ele funciona como um verdadeiro escudo, carregado de componentes de defesa, e abriga grupos de microrganismos que convivem com o hospedeiro.

O mesmo vale para as brânquias. Elas são uma das principais interfaces entre o animal e o ambiente, justamente por estarem constantemente expostas à água, e são fundamentais para processos fisiológicos essenciais como respiração e osmorregulação.

No intestino, a interação é ainda mais complexa. Ali estão presentes alimento, células do próprio animal e uma comunidade diversa de microrganismos que participam de processos relacionados à digestão, ao metabolismo, à integridade intestinal e até mesmo à resposta imune. Quando falamos em saúde intestinal, estamos falando de muito mais que absorção de alimento.

Importante frisar que essas bactérias não vivem de maneira completamente independente, muito menos pacífica. Elas disputam recursos, nutrientes e locais de adesão. Algumas produzem substâncias capazes de inibir ou dificultar o crescimento de outras. Na ciência, esse é o conceito de exclusão competitiva. Essa disputa acontece o tempo todo. Espaço também é recurso!

E onde entra o sistema de defesa? A microbiota também pode “conversar” com o sistema imune.

Certas bactérias e seus metabólitos podem influenciar a resposta imune e contribuir para a manutenção da integridade da barreira intestinal. Nos peixes, essa conexão é crucial, já que seu mecanismo de defesa precisa funcionar mesmo com o animal permanentemente exposto ao ambiente aquático. No caso dos camarões, a discussão é ainda mais interessante. Como os camarões não possuem o sistema imune adaptativo característico dos vertebrados (aquela memória imunológica que criamos com vacinas, por exemplo), sua defesa depende principalmente da imunidade inata, de barreiras físicas e de respostas celulares rápidas. É por isso que entender o papel da microbiota abre tantas portas para repensar a saúde na carcinicultura.

Simplificando, ter uma microbiota “boa” não significa ostentar uma lista de bactérias desejáveis. A saúde depende do equilíbrio, da diversidade dessa comunidade, das funções que desempenha e das interações entre a microbiota, o hospedeiro e o ambiente.

Ao nos depararmos com uma doença durante o cultivo, a reação normalmente é perguntar: qual bactéria está causando isso e como podemos eliminá-la? Essa pergunta continua sendo extremamente importante. Mas e se acrescentarmos outra: o que quebrou o equilíbrio do sistema para que esse microrganismo patogênico tivesse a oportunidade de se estabelecer?

Em vez de focar apenas em combater as bactérias indesejáveis, podemos favorecer as comunidades microbianas que contribuem para o equilíbrio do sistema de cultivo e para a defesa do animal. Na próxima coluna, vamos entrar de cabeça no universo dos probióticos para entender quando e como aplicar esse conceito na prática.

Sugestão de leitura:

E se as bactérias do nosso intestino também influenciassem nosso peso?

A relação entre microbioma intestinal, metabolismo e obesidade é um dos exemplos que mostram como os microrganismos que vivem conosco podem participar de processos muito maiores do que imaginamos. Para quem quiser conhecer um pouco mais sobre esse universo, vale a leitura de: The microbiota’s guide to weight gain | Nature Research.

Referências:

Lind et al. (2023). — Frontiers | Microbiomes in the context of developing sustainable intensified aquaculture

McMurtrie et al. (2025). — The ecology and plasticity of fish skin and gill microbiomes: seeking what matters in health and disease | FEMS Microbiology Reviews | Oxford Academic.

Próxima:

Probióticos, quando a microbiota vira estratégia de manejo

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