A química tecidual contra patógenos
Os tecidos de barreira do camarão, como as brânquias e o hepatopâncreas, são a primeira linha de defesa contra os vírus presentes na água. Nesses locais, os glicoseaminoglicanos (GAGs) compõem a matriz extracelular, onde o padrão de sulfatação atua influenciando a ligação e a entrada de agentes infecciosos. Ao mapearem a família de enzimas arilsulfatases no genoma do Litopenaeus vannamei, os autores identificaram oito genes funcionais. Entre eles, o gene LvArs2 destacou-se por apresentar elevadíssima abundância de transcritos no hepatopâncreas, o principal órgão imunológico do camarão.
Engenharia enzimática e testes in vivo
A caracterização bioquímica revelou que a proteína LvARS2 atua como uma arilsulfatase lisossomal, com máxima atividade catalítica em pH levemente ácido de 5,0, temperatura de 40 °C e forte dependência de íons cálcio. Para investigar a função da enzima in vivo, a equipe realizou testes com camarões divididos em quatro tratamentos: silenciamento do gene LvArs2 via RNA de interferência (dsArs2), aplicação da enzima recombinante purificada, resgate combinado e o grupo controle. Em seguida, os animais foram desafiados com o vírus WSSV para monitorar a resposta tecidual e a carga infecciosa por 48 horas.
Menos sulfatação, menor carga viral
Os resultados experimentais revelaram uma ligação direta entre a química tecidual e a susceptibilidade ao vírus. O silenciamento gênico do LvArs2 elevou o acúmulo de GAGs sulfatados no hepatopâncreas e nas brânquias, resultando em um aumento expressivo da carga de WSSV medida pela taxa do gene viral VP28. Por outro lado, a administração da enzima recombinante reduziu o sinal de sulfatação nos tecidos e diminuiu significativamente a carga viral, enquanto o grupo resgate reverteu o quadro para níveis próximos aos do controle.
Novas janelas para o manejo sanitário
Ao esclarecer o mecanismo molecular que conecta o metabolismo dos glicoseaminoglicanos à defesa antiviral, o estudo demonstra que a matriz extracelular dos crustáceos pode ser modulada enzimaticamente. Essa descoberta abre perspectivas para o desenvolvimento de soluções biotecnológicas e aditivos funcionais capazes de reforçar a resistência natural do camarão-cinza, oferecendo uma nova ferramenta contra patógenos na aquicultura.
