“-Ah, mas é que eu faço pesquisa de base.” Ou então a clássica frase: “-A sociedade não valoriza, não reconhece a importância da pesquisa científica.” Desculpas esfarrapadas! Não é obrigação da sociedade entender a complexidade de uma pesquisa de base e muito menos interpretar o linguajar científico. Quem tem obrigação de comunicar-se com a sociedade é o pesquisador! Até porque é a sociedade quem banca este profissional. E não só por isto. O ser estudado e que se considera “evoluído” perante o resto da sociedade é o pesquisador. Então é obrigação dele se comunicar com a sociedade.
Quer mais um absurdo? Os salários dos pesquisadores e professores são pagos pela sociedade, as pesquisas são financiadas com dinheiro público e os melhores resultados são publicados em revistas fechadas, que cobram cifras consideráveis para permitir acesso aos artigos. Ou seja, a sociedade que bancou a realização destas pesquisas simplesmente não tem acesso livre àquilo que financiou. Afinal, pesquisa-se pra quem?
Isto configura-se numa clássica situação de aprisionamento de conhecimento! Conhecimento tem que ser disponibilizado e não aprisionado. Mas qualquer cidadão pode ir até uma biblioteca universitária e acessar estes artigos? Sim, mas esta biblioteca utilizou recursos públicos para ter direito a este acesso. Além do mais, em tempos modernos, o cidadão comum deveria ter o livre direito de acessar isto pela internet.
Se por questões científicas este modelo e esta estrutura devem ser mantidos, tudo bem. Mas o conhecimento gerado precisa, de alguma forma, ser disponibilizado à sociedade. Ou seja, deveria ser obrigação do pesquisador comunicar-se não somente com seu seleto grupo de colegas por meio de artigos científicos, mas também com o cidadão comum, através de uma linguagem simples e compreensível ao setor produtivo. Ou, melhor ainda, transformando os achados científicos em soluções perante as demandas do setor produtivo. Afinal, é este quem banca os salários e as pesquisas.
Porém, a questão é que não há interesse por parte dos pesquisadores que a sociedade saiba e tenha conhecimento do que efetivamente ele está pesquisando. Afinal, ele pesquisa o que dá publicação e não exatamente para atender às demandas da sociedade. Ao tornar público o que realmente pesquisam, permitirá que a sociedade conclua que em torno de 70% do que foi publicado não serviu para absolutamente nada.
As pesquisas deveriam ter como premissa o atendimento de demandas do setor produtivo. A partir disso, o pesquisador é que teria que se virar nos 30 para encontrar o que dá publicação — e não o contrário. Atualmente, pesquisa-se o que dá publicação e o setor produtivo é que se vire para encontrar alguma utilidade naquilo que foi publicado. Há exceções? Sim, há! Mas regra geral é procurar um delineamento ou um assunto que simplesmente dê publicação.
Por muito tempo o setor produtivo aguardava ansiosamente por soluções tecnológicas vindas da academia. Porém, os tempos são outros. Atualmente é gritante o descompasso entre academia e setor produtivo. Simplesmente as coisas se inverteram, já que é notória a quantidade de novas tecnologias que partem da iniciativa privada. Quer uma constatação prática? A edição deste ano da AquiShow, em parceria com as revistas Aquaculture Brasil e Seafood Brasil, lançou o Prêmio Inovação Aquícola. De todos os cases inscritos, 66% são iniciativas do setor privado. Será que os pesquisadores estão tão ocupados com suas pesquisas que não tiveram tempo para inscrever seus cases, ou é a iniciativa privada a grande responsável pelas novas tecnologias junto ao setor produtivo?
No caso específico da produção de organismos aquáticos, o setor produtivo tem meia culpa nisso. Atualmente já temos associações e entidades devidamente respaldadas e com autonomia para cobrar maior objetividade e aplicabilidade dos trabalhos científicos.
“-Mas Fábio, você como pesquisador científico está jogando contra seus colegas?” Não, muito pelo contrário! Contra fatos não há argumentos. É urgente a necessidade de se reinventar o modo de fazer pesquisa, bem como a postura do pesquisador perante a sociedade. Afinal, o ser estudado, titulado e, portanto, flexível a mudanças é o pesquisador. Pelo contrário, seus cargos não durarão por muito tempo.
