O desafio da sustentabilidade nas rações
O crescimento acelerado da aquicultura intensiva elevou a demanda por farinha de peixe capturado na natureza, uma prática considerada insustentável a longo prazo. Além disso, sistemas intensivos geram efluentes ricos em nutrientes que causam a eutrofização de corpos d’água locais.
Espécies de lentilha-d’água proliferam nessas águas residuais, absorvendo eficientemente nitrogênio e fósforo. Os autores viram nesse cenário uma oportunidade de economia circular: transformar essa biomassa vegetal indesejada em proteína de inseto de alto valor para a alimentação de peixes.
Produção de insetos a partir de biomassa vegetal
O experimento utilizou uma biomassa composta por cerca de 80% de Lemna minor e 20% de Lemna gibba, colhida em julho de 2025. O material foi seco e misturado com milho para atingir o teor ideal de umidade e a proporção adequada de carboidratos e proteínas.
As larvas de mosca-soldado-negra foram criadas nesse substrato por cinco dias, tendo como controle uma dieta baseada em ração de galinhas poedeiras. Embora o controle tenha atingido maior peso final, as larvas alimentadas com lentilha-d’água mostraram crescimento inicial mais rápido nos três primeiros dias.
Desempenho zootécnico preservado no bagre
Após a desidratação e o desengorduramento parcial das larvas, a farinha de inseto foi incorporada em 33% na dieta de alevinos de bagre-africano durante um ensaio de 40 dias. Os cientistas constataram que os teores de proteína bruta, gordura e quitina das larvas não diferiram entre os tratamentos.
No teste de alimentação com os peixes, os indicadores zootécnicos essenciais — incluindo taxa de sobrevivência, biomassa total, peso médio, comprimento, conversão alimentar e taxa de crescimento específico — foram estatisticamente equivalentes entre todos os grupos alimentados com insetos e o controle comercial.
Implicações práticas e monitoramento necessário
A integração da lentilha-d’água na produção de mosca-soldado-negra representa um avanço significativo para fechar o ciclo de nutrientes na aquicultura. A estratégia reduz a dependência de insumos tradicionais e mitiga o impacto ecológico dos efluentes produtivos.
Os autores ressaltam que aplicações industriais futuras devem investigar os aspectos econômicos do processo. Também será necessário monitorar riscos de bioacumulação de poluentes ou metais pesados pela planta aquática antes de uma implementação em larga escala.
