Faço alguma ideia do quanto é complicado a gestão de algo do tipo. Só que enquanto isto, grandes empresas não especializadas em pescado estão ficando com a maior fatia do bolo. Colocando em check inclusive estas empresas especializadas em proteína aquática que tiveram louváveis iniciativas individuais.
A inspiração para abordar este tema surgiu por conta das discussões que acompanho nos grupos de WhatsApp, tanto de piscicultura quanto de carcinicultura. É recorrente a reclamação dos produtores em relação aos intermediários. A bem da verdade, atravessadores. Entendo que tenha uma grande diferença entre um e outro. Intermediário é aquele que faz a intermediação entre as partes interessadas. Atravessador é aquele que só está interessado em ganhar, tanto na compra quanto na venda. E lamentavelmente, seja no peixe ou no camarão, só temos atravessadores. Os quais não estão nem um pouco preocupados com a qualidade do produto. Já vi exceções, mas via de regra, por falta de cuidados, depreciam a qualidade do peixe e do camarão, implicando em menor valor de revenda e, desta forma, impossibilitados de pagar melhor para o produtor.
Constata-se então dois cenários bem caracterizados: 1) Os aquicultores pioneiros que individualmente conseguiram se verticalizar disputando mercado com grandes empresas não especializadas em proteína aquática; e 2) Produtores de peixe e camarão brigando com os atravessadores para sobreviverem no negócio. Em ambos os casos, pouca ou nenhuma ação coletiva para resolver sendo realizada. Aliás, no caso dos atravessadores, nota-se que são mais organizados que os produtores. Talvez porque um atravessador não tem interesse em ter um caminhão mais bonito que o seu colega de profissão. Enquanto que o aquicultor ainda tem como meta ser melhor que o vizinho. O que não tem problema algum, desde que o vizinho em questão tenha resultados extraordinários.
Sei bem que apontar defeitos é fácil, difícil é trazer soluções. Mas neste caso, o começo da solução do problema passa pela identificação do cenário e em seguida uma mudança de mentalidade. Vou dar um exemplo: No meu tempo de vendedor de ração, quando frequentava muito as feiras agropecuárias, era nítida a vaidade dos pecuaristas pelas raças bovinas. Cada raça tinha uma associação e ainda uma revista impressa. Notava-se um orgulho diferenciado especialmente nos criadores de raças europeias, maior porte e carne mais marmorizada. Lindas, mas só põem peso se tiver comida boa no cocho. Logo, a conta não fecha. Até raças sintéticas surgiram. Por sinal, super válida a iniciativa. Porém, o mercado ditou a regra: “É pra ganhar dinheiro? Então vai no nelore ou no máximo em um cruzamento industrial pra algumas situações específicas.” Sei que no caso do peixe isto nunca irá acontecer, pois, trata-se de espécies diferentes. Mas o paralelo que quero traçar com a bovinocultura é em relação ao entendimento do negócio: produzir carne bovina e não esta ou aquela raça.
O cenário de escoamento do pescado produzido está aí, não enxerga quem não quer. Quanto à produção, precisamos urgentemente começar a pensar em produzir proteína aquática. Criar peixe ou camarão X produzir proteína aquática, pode ser só um jogo de palavras. Igualmente é intermediário X atravessador. Ter o devido entendimento do que realmente é um e outro, pode fazer toda a diferença. #VaiAqua!
