Mudanças climáticas e aquicultura: o que o cultivo de macroalgas tem para oferecer?

Enquanto líderes mundiais debatem metas climáticas em cúpulas internacionais e engenheiros projetam tecnologias bilionárias de captura de carbono, uma solução simples da própria natureza pode estar flutuando silenciosamente nas águas rasas do litoral brasileiro. Algo mais simples do que uma grande invenção e muito investimento financeiro. Estamos falando das macroalgas, organismos que existem há centenas de milhões de anos e que, cada vez mais, têm sido citados como aliados estratégicos no enfrentamento das mudanças climáticas. Mas será possível que organismos tão simples quanto as macroalgas ajudem a enfrentar um dos maiores desafios da humanidade?
 

A temperatura média global já aumentou cerca de 1,1 °C em relação ao período pré-industrial. Parece pouco, mas os efeitos já são visíveis e chegam às comunidades costeiras, aos pequenos e grandes produtores, e até mesmo às grandes cidades. Ondas de calor mais intensas, secas que comprometem safras inteiras e enchentes que destroem cidades são alguns exemplos. As projeções indicam que podemos chegar a 1,5 °C de aquecimento entre 2030 e 2052 se as emissões de gases de efeito estufa (CO₂, metano e óxido nitroso) seguirem o ritmo atual. O que poucos percebem é que o oceano, que cobre mais de 70% do planeta, já absorve cerca de 30% do CO₂ emitido pela humanidade e mais de 90% do calor gerado por esse aquecimento. O oceano é, literalmente, o grande regulador climático da Terra. E as algas (micro e macro) são parte central desse sistema.

Do carbono azul estocado pelo oceano, as grandes florestas naturais de macroalgas são responsáveis por 1,5 petagrama de carbono por ano (Krause-Jensen et al., 2018), o qual é transportado para águas profundas e sedimentado, onde permanece estocado por séculos. Além do sequestro de carbono, as macroalgas podem contribuir para a mitigação climática por outras vias, como a substituição de matérias-primas fósseis na produção de biocombustíveis e bioplásticos, redução da emissão de metano entérico quando incorporadas à alimentação de bovinos e ainda prestação de serviços ecossistêmicos essenciais, como a regulação do pH costeiro e a proteção de habitats marinhos. Mas será que o cultivo de macroalgas tem a mesma capacidade de estocar carbono que as florestas naturais?

É aqui que precisamos ser honestos: a contribuição quantificável dos cultivos de algas para a remoção de CO₂ atmosférico ainda é incerta, não tanto quanto à sua quantificação, mas principalmente sobre a capacidade de estocagem por um longo período, como ocorre com as florestas marinhas. Além disso, cada espécie de macroalga pode apresentar uma capacidade diferente de estocagem. Mas, quando contabilizamos toda a cadeia produtiva, a algicultura pode ser considerada próxima da neutralidade de carbono. Com isso, a algicultura deve ser encarada como uma estratégia complementar, e não como solução única e milagrosa. E é exatamente nessa complementaridade que reside o valor e o diferencial da produção de macroalgas.

Para quem atua no setor aquícola, há um argumento ainda mais imediato: a algicultura gera renda real para comunidades costeiras que, muitas vezes, são as primeiras a sofrer os impactos das mudanças climáticas, como, por exemplo, pescadores artesanais cuja atividade é comprometida por alterações nas populações pesqueiras. Essas comunidades podem encontrar na algicultura uma alternativa produtiva viável, de baixo custo inicial e com mercados em expansão. Estudos mostram melhora na renda e no acesso a serviços básicos em comunidades que adotaram o cultivo de algas, além de seu reconhecido potencial para o empoderamento feminino, uma vez que as etapas de preparo de mudas, manejo e beneficiamento são frequentemente conduzidas por mulheres. Além disso, o leque de mercados a serem explorados é bastante amplo, incluindo alimentação humana, alimentação animal, cosméticos, fármacos e bioestimulantes.

Seria trivial, porém, encerrar este texto sem falar dos obstáculos a serem superados. A regularização da algicultura no Brasil ainda exige articulação entre múltiplos órgãos, e o processo de licenciamento pode ser lento e burocrático, especialmente para pequenos produtores. Do ponto de vista produtivo, é preciso novas tecnologias para escalabilidade, assim como o acesso dos pequenos produtores à regularização da atividade e a mercados estratégicos. Do ponto de vista científico, ainda existem algumas lacunas relevantes sobre quanto carbono os cultivos realmente estocam no longo prazo, a rastreabilidade desse carbono e quais são os efeitos da expansão da atividade em larga escala sobre os ecossistemas costeiros. E claro, existem diferentes formas de transformar o cultivo de macroalgas em soluções para redução de carbono, como por exemplo a adoção de um cultivo integrado por um produtor de camarões ou árvores líquidas (sim, elas existem) em centros urbanos. Por mais que seja uma solução da natureza, a criatividade e tecnologia existem para irmos além.

E nesse contexto, é importante a maior integração entre diferentes setores da economia azul, como universidades, comunidades, empresas e governos, não apenas nas discussões sobre o tema, como também em investimentos e uma agenda compartilhada. O potencial existe e tem sustentação científica, mas sua consolidação depende de planejamento estratégico, regulamentação adequada e de uma visão de longo prazo que conecte ciência, produção, conservação e desenvolvimento social.

As mudanças climáticas já podem ser sentidas e, enquanto aguardamos respostas que ainda estão em construção, não podemos ignorar o potencial das macroalgas como uma alternativa dentro da agenda de descarbonização do Brasil. Existem condições reais para esse desenvolvimento, com competência científica, condições ambientais privilegiadas e comunidades engajadas. Talvez algumas das soluções mais importantes para a resiliência climática não estejam nas grandes indústrias ou em tecnologias complexas, mas na engenharia ecológica. A pergunta que fica é: estamos preparados para enxergar nas algas não apenas um recurso natural, mas uma ferramenta estratégica para construir um setor aquícola mais sustentável?

Figura 1. Coleta de gases do efeito estufa no cultivo de macroalgas em Trairi – CE.
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