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A reprodução de peixes migradores pode estar à beira do colapso?

Como assim? Na beira do colapso? Pois é caros leitores, essa expressão pode refletir o momento que estamos enfrentando na reprodução de peixes migradores no Brasil. Essa metáfora pode ser aplicada neste momento de instabilidade na reprodução, e não estou me referindo às mudanças climáticas, falta de controle genético, baixa preocupação em biosseguridade e nem na falta de informação dos produtores, me refiro à disponibilidade de indutores hormonais presentes no mercado nacional e isso pode comprometer uma cadeia produtiva e impactar diretamente a produção de nativos no país.

Como já apontado aqui na nossa primeira coluna de reprodução, os peixes nativos necessitam do gatilho comportamental de migração rio acima, conhecido como piracema, para produzir os hormônios gonadotrópicos para reproduzir. Na ausência da migração, a 2ª disfunção reprodutiva ocorre, não havendo a produção do hormônio luteinizante (LH), responsável pela produção de prostaglandinas e consequentemente ovulação e desova, havendo então, a necessidade de indução hormonal para obter sucesso na reprodução. Para isso, diferentes indutores podem ser utilizados, sendo os mais convencionais o Extrato Bruto de Hipófise de Carpa (EBHC) e os Hormônios Liberadores de Gonadotrofinas (GnRH). Em 2023, uma publicação na revista Reviews in Aquaculture, Mechaly e colaboradores indicaram quais destes hormônios já foram utilizados com sucesso na reprodução de espécies nativas na América Latina. Neste trabalho ficou evidente que a reprodução da grande maioria das espécies criadas comercialmente pode ser realizada de forma eficiente por meio de diferentes indutores hormonais, havendo a necessidade de padronização de técnicas e dosagens.

Neste sentido, ao deparar-se com a eficiência indicada, muitas pessoas recorrem à internet para realizar a busca por fornecedores dos hormônios citados, aí que está o problema, não há disponibilidade de empresas no Brasil que comercializam os principais hormônios sintéticos para peixes (Ovaprim®, Ovopel®, Sudaprim®), sendo que deles, apenas o acetato de buserelina é registrado no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) para utilização em peixes, e com registro momentaneamente classificado como suspenso. Já para a hipófise, considerada a técnica mais usual e a mais praticada pelos produtores, não há registro no MAPA para sua utilização. Atualmente, contamos com apenas um único fornecedor de EBHC no Brasil que comercializa a grande parte dos hormônios utilizados na produção. Apesar de que, em um site de vendas on-line, é possível visualizar a venda por outros fornecedores, porém sem avaliações da qualidade, procedência e eficiência do produto.

Neste sentido, qual é o caminho? Esta pergunta de milhões ainda não temos resposta. Talvez as fabricantes dos hormônios sintéticos, ou os vendedores dos extratos brutos de hipófise possam verificar junto ao MAPA a possibilidade de registro dos produtos para livre comércio no País. Ou talvez, outras alternativas possam surgir, como por exemplo, a utilização do Extrato Bruto de Hipófise de Lambari, produto nacional desenvolvido no CAUNESP pela equipe do Dr. Sérgio Batlouni, patenteado (nº BR10202101833) e já utilizado com sucesso em algumas espécies de peixes nativas. Neste caso, evitando a entrada de hipófise de outros países e consequentemente a possibilidade de contaminações por parasitas, vírus, bactérias ou fungos inexistentes no Brasil, já que a hipófise desidratada pode apresentar esta possibilidade. Porém, o registro destes hormônios ainda é um desafio a ser superado. Será que a quantidade de produto a ser comercializada garante a viabilidade econômica e a burocracia de registro junto ao MAPA? Talvez uma força conjunta de diferentes segmentos do governo, sociedade e instituições de pesquisa possa contribuir para a discussão deste tema e encontrar uma solução para que a atividade não fique dependente de um único fornecedor, ou que continue sendo realizada sem as devidas autorizações.

Close nas mãos que seguram um peixe de couro (pintado) com manchas, imerso em água em um recipiente, enquanto utilizam uma pequena seringa para aplicar indução reprodutiva.
Imagem cedida pelo autor

Mãos calçadas com luvas de procedimento seguram uma seringa azul e aplicam injeção de indução hormonal em um peixe nativo (tambaqui) contido em uma rede azul dentro de um tanque.
Imagem cedida pelo autor

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