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Com ciclo completo da tilápia, colégio agrícola do Paraná leva os gargalos reais da atividade para a sala de aula

O Centro Estadual de Educação Profissional Agrícola (CEEPA) São Mateus do Sul, no Sudeste do Paraná, produziu em 2025 cerca de uma tonelada de tilápia em peso vivo. A receita foi de aproximadamente R$ 10 mil com a venda do filé, a cerca de R$ 65/kg, pela cooperativa escolar. Segundo a Secretaria de Estado da Educação (SEED-PR), a escola é a primeira entre os 31 colégios agrícolas da rede estadual a ter estrutura própria completa para a formação prática em piscicultura.

O número de produção é modesto, e a própria escola explica por quê. A sobrevivência nos viveiros costuma ficar entre 15% e 20%. A área de piscicultura é aberta, com muitos predadores, e neste ano as variações climáticas dificultaram ainda mais o manejo. Para os 83 estudantes do curso técnico em Agropecuária, esses gargalos fazem parte do conteúdo.

Estrutura: seis viveiros escavados

A unidade passou por um projeto de revitalização dos viveiros escavados, com limpeza e retirada da camada de solo do fundo. São seis viveiros: quatro com tilápia, um com lambari e um com peixes diversos. Os dois últimos não recebem ração.

Estudantes passam rede de arrasto em viveiro escavado do CEEPA São Mateus do Sul em manhã de neblina
Despesca com rede de arrasto em viveiro escavado do colégio. Foto: CEEPA São Mateus do Sul
Viveiro Espécie Dimensões (m) Área (m²) Volume (m³) Povoamento
2 Tilápia 15 × 41 × 1,20 615 738 2.000 alevinos, nov/25
3 Tilápia 27 × 42 × 1,25 1.134 1.417,5 2.000 alevinos, mar/26
4 Tilápia 31 × 25 × 1,20 775 930 2.000 alevinos, mar/26
6 Tilápia 27 × 30 × 1,20 810 972 2.000 alevinos, mar/26
1 Lambari 18 × 10 × 0,70 180 126 Não alimentado
5 Peixes diversos 24 × 22 × 1,30 528 686,4 Não alimentado
Fonte: CEEPA São Mateus do Sul

Os quatro viveiros de tilápia somam 3.334 m² de lâmina d’água e 4.057,5 m³. Com 2.000 alevinos em cada um, a densidade inicial do ciclo atual vai de 1,8 a 3,3 peixes/m², conforme o viveiro. A escola não detalhou o lote que originou a produção de 2025: os povoamentos informados são do ciclo em andamento.

Manejo e arraçoamento

Os alevinos chegam com cerca de 2 cm e são adquiridos por licitação conduzida pelo Instituto Paranaense de Desenvolvimento Educacional (Fundepar). O ciclo dura aproximadamente um ano, e a despesca é feita quando as tilápias chegam a cerca de 1,2 kg.

A ração também é comprada por licitação e tomada de preços, e o fornecedor varia conforme o processo. O programa alimentar segue quatro fases:

Fase Peso Granulometria Proteína bruta
Alevino 5 a 19 g 1 mm 42%
Juvenil I 20 a 65 g 2 mm 38%
Juvenil II 66 a 360 g 4 mm 36%
Adulto acima de 360 g 6 a 8 mm 32% a 30%
Fonte: CEEPA São Mateus do Sul

A quantidade de ração é recalculada a partir das biometrias periódicas, com três tratos diários na fase inicial e três a quatro na engorda. Os alunos também monitoram oxigênio dissolvido, temperatura, pH e transparência da água.

A conversão alimentar esperada é de 1,3 a 1,5 em condições climáticas normais. Em 2026, segundo a escola, está mais alta: com dias chuvosos e nublados e pouca incidência de sol, os peixes deixam de se alimentar.

Do viveiro ao filé

Depois da despesca, o processamento é feito na própria escola: lavagem, escamação, evisceração, nova higienização das carcaças e filetagem. Os filés são congelados e vendidos à comunidade local pela cooperativa escolar. Todo o processo tem acompanhamento de uma médica-veterinária, responsável técnica pela atividade.

Estudantes de touca, máscara e luvas fazem a filetagem de tilápia na sala de processamento do CEEPA São Mateus do Sul
Filetagem na sala de processamento da escola. Foto: CEEPA São Mateus do Sul

A receita volta para o colégio, principalmente em ração, implementos e EPIs. Parte dos resíduos do processamento vai para compostagem e vira adubo para as hortas orgânicas da escola. A escola não informou quanto filé foi comercializado nem a destinação do restante da produção.

Para Thales Okonoski, diretor da Unidade Didático-Produtiva (UDP), o valor pedagógico está em acompanhar a atividade inteira. “O estudante participa do ciclo completo, desde a chegada dos alevinos até a comercialização do pescado. Nesse processo, aprende a tomar decisões com base em dados, controlar custos, avaliar a qualidade da água e entender como cada etapa interfere no resultado final”, diz.

Viveiro como sala de aula

A piscicultura está integrada a um projeto pedagógico interdisciplinar:

  • Química: parâmetros de água, granulometria da ração e uso de calcário nos viveiros.
  • Matemática: cálculo de consumo e desperdício de ração e projeções de crescimento com dados reais.
  • Finanças: definição do preço de venda e balanço da atividade.
  • Meio ambiente: manejo e reaproveitamento de resíduos.

“Na prática, conseguimos acompanhar o desenvolvimento dos peixes, fazer a biometria, participar da despesca e até da filetagem. Esse contato direto ajuda muito a entender o que aprendemos em sala de aula”, conta Karoline de Souza, aluna da 2ª série.

Cerca de metade dos estudantes está em regime de internato, e 60% são mulheres. A primeira turma do colégio, criado em 2024, se forma no fim de 2026.

Próximo ciclo

A meta da escola é ampliar a produção em mais de 50% no próximo ciclo. A aposta está em condições climáticas mais favoráveis, novas rações e ajustes no manejo. Com sobrevivência entre 15% e 20%, o controle de predadores é o ponto com mais espaço de ganho. O resultado do ciclo atual só será conhecido na despesca.

“A educação profissional precisa acompanhar as vocações e as oportunidades de cada região. A piscicultura é uma atividade em expansão no Paraná, e trazer essa prática para dentro da escola fortalece a formação técnica e amplia as perspectivas dos nossos estudantes”, afirma o secretário de Estado da Educação, Roni Miranda.

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