A busca por dietas funcionais na fase inicial
O cultivo de abalones enfrenta o desafio do crescimento lento da espécie, que pode levar de três a cinco anos para atingir o tamanho comercial. Nas primeiras semanas após o assentamento, os juvenis dependem do consumo de microalgas e bactérias presentes no biofilme. Inspirados na relação ecológica natural da costa sul-africana, onde os abalones juvenis buscam abrigo e alimento sob os ouriços-do-mar, os cientistas testaram se o reaproveitamento das fezes dos ouriços poderia otimizar a nutrição inicial desses moluscos em cativeiro.
Desenvolvimento acelerado nas primeiras semanas
No experimento comercial, dois grupos de juvenis com comprimento inicial de 2 a 3 milímetros receberam uma dieta mista composta por diatomáceas, macroalgas (Ulva lacinulata e Gracilaria gracilis) e ração formulada. O grupo experimental recebeu adicionalmente a matéria fecal fresca coletada de tanques de ouriços mantidos exclusivamente com a alga Ulva lacinulata. Os animais suplementados apresentaram um ganho de comprimento de concha significativamente maior, com destaque para as primeiras quatro semanas, além de um maior índice de preenchimento do trato digestivo em comparação ao grupo controle.
Enriquecimento do microbioma e transferência de bactérias
O sequenciamento genético mostrou uma forte similaridade entre as comunidades bacterianas presentes nas fezes dos ouriços e no intestino dos abalones suplementados. Ao final de oito semanas, os abalones do grupo tratado compartilhavam 62 gêneros bacterianos com os resíduos dos ouriços, incluindo membros do microbioma core como Psychromonas e Propionigenium. Essas bactérias atuam na fermentação, digestão, síntese de ácidos graxos e fixação de nitrogênio, além de demonstrarem potencial antagônico contra patógenos oportunistas do gênero Vibrio, cuja abundância foi menor no grupo suplementado.
Sustentabilidade e integração na aquicultura
A suplementação não causou alterações histológicas negativas, sinais de estresse ambiental ou variações expressivas na atividade de enzimas digestivas como amilase e protease, mantendo a taxa de sobrevivência média acima de 70% em ambos os grupos. Os autores destacam que a estratégia representa uma abordagem intratrófica inovadora na Aquicultura Multitrófica Integrada (IMTA), permitindo reaproveitar resíduos biológicos, diversificar a produção com o cultivo simultâneo de ouriços e elevar a eficiência econômica nos incubatórios.
