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Microalgas convertem efluentes agroindustriais em biomassa de alto valor e biofertilizantes

Pesquisadores da Universidade de Pavia, na Itália, demonstraram que o cultivo de microalgas pode transformar o tratamento de efluentes orgânicos gerados pela agroindústria, pecuária e resíduos domésticos. O estudo de revisão revela que sistemas microalgais otimizados alcançam eficiências superiores a 90% na remoção da demanda química de oxigênio, nitrogênio e fósforo. Ao mesmo tempo, o processo gera biomassa capaz de abastecer mercados de biofertilizantes, rações animais e biocombustíveis, oferecendo uma resposta concreta às crescentes exigências globais por sustentabilidade.

O gargalo das tecnologias tradicionais

Historicamente, o manejo de resíduos líquidos concentrou-se apenas no tratamento básico para atender aos limites mínimos de descarte ambiental. Métodos tradicionais, como a digestão anaeróbia e o processo de lodos ativados em estações de tratamento, exigem elevado consumo energético e não conseguem recuperar integralmente os nutrientes solúveis. Como consequência, efluentes de bovinocultura, suinocultura, laticínios e indústrias alimentícias frequentemente provocavam eutrofização dos corpos d’água e emissão involuntária de gases de efeito estufa, além de desperdiçar elementos valiosos.

A virada para a recuperação de recursos

A pressão por legislações ambientais mais rigorosas, como as diretrizes atualizadas da União Europeia, forçou uma mudança estrutural no setor. O paradigma mudou do simples descarte para a recuperação circular de recursos. Nesse cenário, espécies de microalgas como a Chlorella vulgaris destacam-se pela flexibilidade metabólica. Cultivadas em regimes autotróficos ou mixotróficos, elas assimilam o amônio, o nitrato e os fosfatos da água, convertendo poluentes em proteínas, lipídios e carboidratos de elevado valor comercial.

Integração em biorefinarias e escalonamento

A pesquisa reforça que o uso de microalgas é mais eficiente quando integrado a infraestruturas existentes, servindo como tratamento secundário ou terciário após o processamento anaeróbio ou hidrólise. Contudo, a aplicação comercial ainda enfrenta variações no nível de maturidade tecnológica, situado entre TRL 3 e 8. A viabilidade econômica exige superar entraves no consumo energético para a separação da biomassa, na estabilidade de cultivos ao ar livre e nos elevados custos de pré-tratamento de efluentes muito turvos.

Rumo ao mercado e à padronização legal

O avanço definitivo das microalgas na bioeconomia depende do alinhamento entre ciência, indústria e políticas públicas. Além dos avanços em engenharia de fotobiorreatores e lagoas de alta taxa, os pesquisadores apontam a urgência de definições regulatórias claras sobre o fim da condição de resíduo para a biomassa produzida. Com regras harmonizadas de biossegurança e tecnologias de colheita otimizadas, os sistemas baseados em microalgas poderão consolidar o saneamento como uma matriz limpa e lucrativa para o setor produtivo.

Fonte: Microalgae for organic wastewater valorisation: From regulatory barriers to technology readiness

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