Mexilhões híbridos entram em estoques comerciais e ameaçam certificações sustentáveis

Cientistas da Queen’s University Belfast e do Agri-Food & Biosciences Institute detectaram a presença de mexilhões exóticos e híbridos em áreas de cultivo comercial e bancos selvagens na Irlanda do Norte. Utilizando a técnica de PCR em tempo real, a equipe identificou pela primeira vez na região linhagens não nativas misturadas aos estoques do mexilhão nativo Mytilus edulis. A descoberta acende um alerta para a biossegurança e para a rentabilidade da atividade, já que a hibridização altera características comerciais desejáveis, como o rendimento de carne e a resistência da concha.

A ameaça silenciosa das espécies críticas

O cultivo de mexilhões na Irlanda do Norte historicamente baseia-se na premissa de que apenas a espécie nativa Mytilus edulis compõe os bancos de sementes e as áreas de engorda. No entanto, espécies do gênero Mytilus hibridizam facilmente em zonas de sobreposição. Esse fenômeno gera impactos econômicos severos para os produtores. Enquanto o mexilhão nativo possui alta tolerância térmica e concha robusta, linhagens como Mytilus trossulus apresentam menor rendimento de carne e conchas extremamente frágeis, que quebram facilmente durante o transporte e reduzem o tempo de prateleira do produto.

Rastreamento genético via amostragem em grupos

Para mapear a real distribuição geográfica desses animais, os pesquisadores coletaram 600 indivíduos em 20 locais diferentes, abrangendo ambientes de cultivo subtidais e populações selvagens intertidais. A metodologia envolveu uma estratégia de extração de DNA em grupos de dez indivíduos, reduzindo drasticamente os custos laboratoriais sem perder a sensibilidade para detectar um único exemplar exótico. Nos casos em que grupo indicava a presença de material genético não nativo, a equipe realizava a triagem individualizada por qPCR para confirmar o genótipo exato.

Descobertas inéditas e riscos de mercado

As análises laboratoriais revelaram que os alelos não nativos já estão disseminados por quatro dos cinco principais estuários utilizados para a aquicultura na Irlanda do Norte. Os cientistas confirmaram a presença de três indivíduos puros de Mytilus galloprovincialis e dez híbridos de Mytilus edulis com Mytilus galloprovincialis. O achado mais surpreendente foi a identificação de um híbrido de Mytilus edulis com Mytilus trossulus em Belfast Lough, marcando o primeiro registro dessa linhagem no Reino Unido fora do território escocês. Além do prejuízo zootécnico, a presença desses híbridos ameaça certificações internacionais de sustentabilidade, como o selo Marine Stewardship Council, que exige a definição precisa dos estoques cultivados.

Ajustes necessários no manejo de sementes

Os autores indicam que o transporte humano de sementes coletadas em bancos naturais no mar da Irlanda é a via mais provável para a introdução inadvertida dessas linhagens exóticas. Diante do risco de expansão, a pesquisa recomenda a implementação urgente de programas de monitoramento genético rotineiro nos bancos de sementes antes do repovoamento nas concessões aquícolas. A adoção da metodologia de grupos validada neste estudo surge como uma ferramenta economicamente viável para proteger a biossegurança e assegurar a rentabilidade da malacocultura regional frente às demandas crescentes por proteínas marinhas sustentáveis.

Fonte: Hybrid Mytilus spp. detected in commercial mussel stocks: implications for aquaculture practices and biosecurity

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