A temperatura média global já aumentou cerca de 1,1 °C em relação ao período pré-industrial. Parece pouco, mas os efeitos já são visíveis e chegam às comunidades costeiras, aos pequenos e grandes produtores, e até mesmo às grandes cidades. Ondas de calor mais intensas, secas que comprometem safras inteiras e enchentes que destroem cidades são alguns exemplos. As projeções indicam que podemos chegar a 1,5 °C de aquecimento entre 2030 e 2052 se as emissões de gases de efeito estufa (CO₂, metano e óxido nitroso) seguirem o ritmo atual. O que poucos percebem é que o oceano, que cobre mais de 70% do planeta, já absorve cerca de 30% do CO₂ emitido pela humanidade e mais de 90% do calor gerado por esse aquecimento. O oceano é, literalmente, o grande regulador climático da Terra. E as algas (micro e macro) são parte central desse sistema.
Do carbono azul estocado pelo oceano, as grandes florestas naturais de macroalgas são responsáveis por 1,5 petagrama de carbono por ano (Krause-Jensen et al., 2018), o qual é transportado para águas profundas e sedimentado, onde permanece estocado por séculos. Além do sequestro de carbono, as macroalgas podem contribuir para a mitigação climática por outras vias, como a substituição de matérias-primas fósseis na produção de biocombustíveis e bioplásticos, redução da emissão de metano entérico quando incorporadas à alimentação de bovinos e ainda prestação de serviços ecossistêmicos essenciais, como a regulação do pH costeiro e a proteção de habitats marinhos. Mas será que o cultivo de macroalgas tem a mesma capacidade de estocar carbono que as florestas naturais?
É aqui que precisamos ser honestos: a contribuição quantificável dos cultivos de algas para a remoção de CO₂ atmosférico ainda é incerta, não tanto quanto à sua quantificação, mas principalmente sobre a capacidade de estocagem por um longo período, como ocorre com as florestas marinhas. Além disso, cada espécie de macroalga pode apresentar uma capacidade diferente de estocagem. Mas, quando contabilizamos toda a cadeia produtiva, a algicultura pode ser considerada próxima da neutralidade de carbono. Com isso, a algicultura deve ser encarada como uma estratégia complementar, e não como solução única e milagrosa. E é exatamente nessa complementaridade que reside o valor e o diferencial da produção de macroalgas.
Para quem atua no setor aquícola, há um argumento ainda mais imediato: a algicultura gera renda real para comunidades costeiras que, muitas vezes, são as primeiras a sofrer os impactos das mudanças climáticas, como, por exemplo, pescadores artesanais cuja atividade é comprometida por alterações nas populações pesqueiras. Essas comunidades podem encontrar na algicultura uma alternativa produtiva viável, de baixo custo inicial e com mercados em expansão. Estudos mostram melhora na renda e no acesso a serviços básicos em comunidades que adotaram o cultivo de algas, além de seu reconhecido potencial para o empoderamento feminino, uma vez que as etapas de preparo de mudas, manejo e beneficiamento são frequentemente conduzidas por mulheres. Além disso, o leque de mercados a serem explorados é bastante amplo, incluindo alimentação humana, alimentação animal, cosméticos, fármacos e bioestimulantes.
Seria trivial, porém, encerrar este texto sem falar dos obstáculos a serem superados. A regularização da algicultura no Brasil ainda exige articulação entre múltiplos órgãos, e o processo de licenciamento pode ser lento e burocrático, especialmente para pequenos produtores. Do ponto de vista produtivo, é preciso novas tecnologias para escalabilidade, assim como o acesso dos pequenos produtores à regularização da atividade e a mercados estratégicos. Do ponto de vista científico, ainda existem algumas lacunas relevantes sobre quanto carbono os cultivos realmente estocam no longo prazo, a rastreabilidade desse carbono e quais são os efeitos da expansão da atividade em larga escala sobre os ecossistemas costeiros. E claro, existem diferentes formas de transformar o cultivo de macroalgas em soluções para redução de carbono, como por exemplo a adoção de um cultivo integrado por um produtor de camarões ou árvores líquidas (sim, elas existem) em centros urbanos. Por mais que seja uma solução da natureza, a criatividade e tecnologia existem para irmos além.
E nesse contexto, é importante a maior integração entre diferentes setores da economia azul, como universidades, comunidades, empresas e governos, não apenas nas discussões sobre o tema, como também em investimentos e uma agenda compartilhada. O potencial existe e tem sustentação científica, mas sua consolidação depende de planejamento estratégico, regulamentação adequada e de uma visão de longo prazo que conecte ciência, produção, conservação e desenvolvimento social.
As mudanças climáticas já podem ser sentidas e, enquanto aguardamos respostas que ainda estão em construção, não podemos ignorar o potencial das macroalgas como uma alternativa dentro da agenda de descarbonização do Brasil. Existem condições reais para esse desenvolvimento, com competência científica, condições ambientais privilegiadas e comunidades engajadas. Talvez algumas das soluções mais importantes para a resiliência climática não estejam nas grandes indústrias ou em tecnologias complexas, mas na engenharia ecológica. A pergunta que fica é: estamos preparados para enxergar nas algas não apenas um recurso natural, mas uma ferramenta estratégica para construir um setor aquícola mais sustentável?

