Quebra de Expectativas
A retomada das exportações para os Estados Unidos, impulsionada pelo fim do recente tarifaço, havia criado um clima de otimismo no setor. As empresas planejavam acelerar a expansão de suas unidades, construir novos cultivos e modernizar o parque tecnológico.
No entanto, as decisões foram abruptamente pausadas. “Em janeiro e fevereiro, todos os empresários estavam prontos para desaplicar qualquer tipo de reserva, fazer qualquer tipo de sacrifício, formular e empreender novos investimentos”, relatou Eduardo Lobo, presidente da Abipesca.
O cenário mudou rapidamente com os novos desafios macroeconômicos. “Hoje, está todo mundo em espera porque não sabe o que vai acontecer. Temos uma carteira de investimentos planejados, represados na ordem de R$ 500 milhões”, revelou o dirigente.
O Peso da Guerra e dos Combustíveis
O conflito no Oriente Médio desestabilizou rotas comerciais e de consumo fundamentais. O mercado árabe, um grande importador dos pescados brasileiros voltados para o turismo local, foi severamente afetado.
“A guerra já atingiu diretamente um mercado importante (…) e isso desabou, praticamente inexiste nesse momento”, alertou Lobo. Além da perda de demanda, a logística sofreu um duro golpe com a inflação energética.
O setor projeta um acréscimo de até 40% no custo dos fretes, impulsionado pela alta do óleo diesel e do querosene de aviação (QAV). Esse encarecimento afeta diretamente tanto a indústria quanto a base extrativista.
Para os cerca de 20 mil pequenos veículos da frota de pesca artesanal do país, o diesel já representa aproximadamente 40% dos custos totais de captura, comprimindo drasticamente as margens de lucro dos pescadores.
Preços na Prateleira e o Bolso do Consumidor
Para o consumidor final, o impacto será sentido em breve. Como os estoques para a Quaresma e a Semana Santa foram formados antes do agravamento da crise global, os preços no varejo permaneceram estáveis nos últimos meses.
Entretanto, a reposição desses estoques custará mais caro. Lobo projeta que, a partir de maio, o produto chegará com novos valores nas gôndolas. “Isso é muito ruim porque inibe o consumo diretamente”, avaliou o executivo.
Curiosamente, enquanto a proteína nacional sofre forte pressão de custos operacionais, itens importados como salmão, merluza e bacalhau apresentaram queda nos preços, beneficiados pela recente baixa do dólar.
Readequação de Rotas e Esperança Europeia
Apesar do cenário de incertezas, o setor provou sua resiliência em 2025. Sem o mercado estadunidense, a Ásia passou a absorver grande parte da produção, com a China liderando 67% dos embarques, além de novas parcerias com Austrália e países africanos.
Com a recente normalização das tarifas americanas para a casa dos 10%, a meta agora é agressiva: ampliar as vendas e exportar US$ 550 milhões aos EUA. No âmbito político, a ida do ex-ministro da Pesca, André de Paula, para o Ministério da Agricultura trouxe alívio aos empresários.
Segundo a Abipesca, ter um ministro que “entende e sabe todas as dores do setor” fortalece as negociações internacionais. A principal expectativa atual repousa sobre a aguardada auditoria da União Europeia, vista como uma “possibilidade real” para reabrir este mercado crucial após sete anos de embargo.
Fonte: Com guerra e incerteza na economia, setor de pescado adia investimentos milionários










