Com o aumento da expectativa de vida global, cresce também a prevalência de condições debilitantes como a doença de Alzheimer, Parkinson, Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) e Esclerose Múltipla. Diante da necessidade de terapias que modifiquem efetivamente o curso dessas doenças, pesquisadores da Universidade do Porto e do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR), em Portugal, voltaram seus olhos para os oceanos. Um novo estudo destaca como compostos naturais extraídos de organismos marinhos (muitos dos quais já familiares ao setor de aquicultura) emergem como candidatos promissores para proteger o cérebro humano.
Os oceanos cobrem mais de 70% da superfície terrestre e abrigam uma biodiversidade imensa, adaptada a condições extremas de pressão, temperatura e luminosidade. Essas adaptações resultam em moléculas com estruturas químicas únicas e bioatividade superior, muitas vezes até dez vezes mais potentes que as encontradas em fontes terrestres. O estudo aponta que compostos derivados de algas, esponjas, fungos e cianobactérias possuem propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias e antiapoptóticas, essenciais para combater os mecanismos que causam a morte dos neurônios.
Entre as moléculas destacadas, muitas são subprodutos ou alvos de cultivo na aquicultura. A quitina e a quitosana, por exemplo, obtidas principalmente de cascas de crustáceos e resíduos de mariscos, demonstraram capacidade de reduzir o estresse oxidativo e melhorar a função cognitiva em modelos experimentais. Outro destaque é a astaxantina, um pigmento carotenoide encontrado em microalgas, camarões e salmões, que possui um efeito antioxidante significativamente superior a outros carotenoides, protegendo as células contra danos mitocondriais. Ácidos graxos ômega-3, como DHA e EPA, extraídos de óleos de peixe e krill, também são fundamentais na modulação da plasticidade cerebral e na redução da inflamação.
O artigo detalha que essas substâncias atuam em múltiplas frentes. Elas combatem o estresse oxidativo, que é o desequilíbrio entre oxidantes e antioxidantes no corpo, e protegem as mitocôndrias, as usinas de energia das células. Além disso, compostos como o oligomanato de sódio (GV-971), derivado de algas marrons e já aprovado na China para tratamento de Alzheimer, mostram como a regulação da microbiota intestinal por meio desses ativos marinhos pode reduzir a neuroinflamação no cérebro.
No entanto, transformar esses recursos naturais em medicamentos acessíveis apresenta desafios, especialmente em relação à quantidade limitada que pode ser extraída diretamente da natureza. É aqui que o setor produtivo ganha relevância: os pesquisadores apontam a aquicultura e a maricultura, juntamente com a engenharia genética, como soluções viáveis para garantir o fornecimento sustentável dessas matérias-primas, superando as limitações da extração selvagem.
A complexidade das doenças neurodegenerativas exige tratamentos sofisticados e multifuncionais. Os compostos marinhos, com sua capacidade de atingir múltiplos alvos terapêuticos simultaneamente, representam uma fronteira inovadora na medicina. Para o setor de aquicultura, isso reforça o valor agregado de seus produtos e subprodutos, não apenas como alimento, mas como fonte de saúde e biotecnologia avançada.
Fonte: A dive into the untapped potential of marine compounds in counteracting neurodegeneration










