Nos últimos anos, a aquicultura tem avançado significativamente na adoção de práticas responsáveis. Contudo, um elo crítico permanecia vulnerável: a origem e o impacto socioambiental da produção da ração. Representando entre 60% e 70% dos custos operacionais, e constituindo a maior parcela da pegada ambiental da atividade, a alimentação passou a ocupar posição estratégica para assegurar a credibilidade e a consistência das certificações internacionais.
Diversos fatores convergiram para o desenvolvimento do ASC Feed Standard, entre eles a crescente pressão por transparência na cadeia de ingredientes, os riscos associados ao uso de farinha e óleo de peixe provenientes de pesca insustentável, a expansão agrícola global com potencial de vínculo ao desmatamento e à conversão de habitats, e a demanda crescente dos mercados europeu e norte-americano por produtos com certificação completa de cadeia. Reconheceu-se, portanto, que sem incorporar o setor de rações ao escopo de avaliação seria inviável garantir que o produto final refletisse uma produção ambiental e socialmente sustentável.
Atualmente, 72 fábricas ao redor do mundo possuem o status “Certified” (certificado) na base de dados do ASC, enquanto outras 31 estão classificadas como “Initial Audit” (em auditoria inicial), indicando que se encontram em processo de certificação. Os cinco países com mais fábricas de ração certificadas são o Vietnã, com 8 unidades, seguido de Chile e Equador, ambos com 6, além de Noruega e Itália, que registram 5 fábricas cada. Já entre as unidades que se encontram em processo de certificação, a Turquia lidera com 5 fábricas, seguida por Vietnã e Índia, cada um com 4, além de México e Venezuela, que possuem 3 fábricas cada.
A partir de 31 de outubro de 2025, todas as fazendas certificadas ou auditadas segundo os padrões ASC devem comprovar o uso de 100% de ração certificada ASC Feed Mill. Caso a fazenda não apresente evidências de cumprimento em auditorias realizadas após essa data, o auditor deverá emitir uma não conformidade. Para que a fazenda não tenha o certificado suspenso, ela deve realizar o tratamento dessa não conformidade conforme as regras definidas no ASC Variance Request VR-1004, documento que possibilita que a avaliação desse requisito ocorra excepcionalmente em prazo alternativo, quando há uma justificativa sólida como a indisponibilidade de ração no mercado ou evidências de engajamento com fábricas de ração. Este documento não deve ser interpretado como uma extensão do prazo e a empresa deve demonstrar algum nível de progresso. Caso a fazenda não feche a não conformidade dentro do prazo definido, as sanções são progressivas, podendo culminar na suspensão do certificado. A sanção máxima, entretanto, é o cancelamento do certificado; nesse caso, se a fazenda perder a certificação, deverá se submeter a um novo processo de certificação.
A análise das empresas certificadas disponíveis na base de dados do ASC mostra um grande volume de fazendas certificadas em países como Chile, Noruega, Equador, Vietnã e China. Muitas dessas operações, inclusive organizadas em sistemas multi-site, enfrentam uma transição particularmente desafiadora para garantir o uso obrigatório de ração certificada. Empresas desse porte, possuem grandes volumes de compra de ração, diversos fornecedores e operações logísticas complexas. Dessa forma, a transição para o cumprimento do requisito exige uniformidade, simultaneidade e escala. No caso do Brasil, o desafio é ainda mais evidente: apesar de já contar com algumas fazendas certificadas, o país não possui nenhuma fábrica de ração com certificação ASC Feed Standard, o que coloca o setor em posição de vulnerabilidade diante das novas exigências. No entanto, há ainda uma janela aberta para que o setor se mobilize, inicie seus processos de certificação e consiga, dentro dos prazos previstos, viabilizar o fornecimento local de ração certificada. É preciso que as fazendas aproveitem essa oportunidade estratégica, a partir do engajamento com as fábricas de ração, por meio de acordos formais, comunicação ativa e o agendamento de auditorias.
A partir desse novo cenário, a pergunta já não é se a cadeia produtiva irá se adaptar ao ASC Feed Standard, mas quem conseguirá fazer isso a tempo.










