Mas como garantir essa cor característica em sistemas de cultivo? A resposta reside em uma molécula poderosa: a astaxantina. No ambiente selvagem, o salmão adquire sua rica pigmentação ao consumir uma dieta naturalmente rica em carotenoides, presentes em microalgas e crustáceos. Em cativeiro, essa fonte natural é ausente, e é aqui que a suplementação se torna essencial.
O objetivo primário de adicionar astaxantina à ração é justamente replicar essa pigmentação, conferindo à carne do salmão cultivado aquela cor rosada alaranjada tão valorizada pelo mercado consumidor. Mas a astaxantina é muito mais do que um mero pigmento. Ela é também um “potente antioxidante, apoiando o sistema imunológico e protegendo as células contra o estresse oxidativo,” além de “melhorar o crescimento, o desempenho fisiológico e a saúde geral dos peixes”.
Natural ou sintética?
A molécula pode ser obtida de duas formas distintas: natural ou sintética. A astaxantina natural é extraída de organismos como microalgas, em particular a Haematococcus pluvialis, ou de crustáceos como camarões e krill. Esta forma é a que mais se assemelha ao que o salmão consumiria em seu ambiente natural. Estudos apontam que sua “biodisponibilidade e eficácia no organismo do peixe são superiores”, embora sua extração seja mais cara.
Por outro lado, a astaxantina sintética é o cavalo de batalha da aquicultura industrial, principalmente devido ao seu “baixo custo de produção”. E aqui chegamos a um ponto crucial: a astaxantina sintética é frequentemente “derivada de processos petroquímicos”. Sim, essa forma é produzida em laboratório a partir de “precursores químicos oriundos da indústria petroquímica, como o acetileno ou compostos similares oriundos do petróleo”.
Embora a fórmula molecular seja a mesma, a diferença reside na estrutura isomérica. A natural é predominantemente composta pelo isômero 3S,3’S, que é a forma mais facilmente metabolizada. Já a sintética é uma mistura de três isômeros (3S,3’S, 3R,3’R e 3R,3’S), sendo que o 3R,3’R não ocorre naturalmente em peixes ou crustáceos. Essa diferença sutil, mas significativa, pode levar a uma “menor biodisponibilidade e atividade antioxidante” da versão sintética.
Definir os níveis adequados de astaxantina na ração é um balanço delicado que considera o objetivo do cultivo, o estágio de crescimento do peixe e as regulamentações locais. Para a pigmentação eficiente da carne para o mercado consumidor, os níveis geralmente recomendados variam entre 40 e 100 mg de astaxantina por kg de ração (ppm). Estudos indicam que “concentrações acima de 50 mg/kg já fornecem uma coloração aceitável,” mas “valores próximos a 80 mg/kg são preferidos para obter uma coloração mais intensa e consistente”.
No entanto, se o foco for em benefícios antioxidantes e saúde geral do peixe (especialmente em fases iniciais), níveis mais baixos, entre 20 e 40 mg/kg, já são suficientes para “melhorar o sistema imunológico, crescimento e saúde geral”. Para o estágio reprodutivo, onde a astaxantina influencia a qualidade dos ovos e a vitalidade da prole, “níveis mais elevados, entre 90 e 120 mg/kg, podem ser utilizados”.
É crucial considerar fatores como a eficiência de absorção (a astaxantina natural tende a ser mais eficaz), a temperatura da água e as condições de cultivo, que podem exigir ajustes na dosagem. Além disso, as regulamentações locais e para exportação são mandatórias, pois podem haver limites máximos de inclusão.
Para garantir que os níveis desejados de astaxantina foram alcançados e que a qualidade do produto final é assegurada, a quantificação analítica é fundamental. Aqui enumeramos os principais métodos:
- Cromatografia Líquida de Alta Eficiência (HPLC): Considerado o “padrão ouro” devido à sua “alta sensibilidade e precisão”. Ele é capaz de diferenciar isômeros e formas (livres, esterificadas) da astaxantina.
- Espectrofotometria UV-Vis: Um método mais simples e acessível, embora com “menor especificidade e sensibilidade”, útil para avaliações gerais.
A preocupação com a origem petroquímica da astaxantina sintética naturalmente leva à pergunta: se a fórmula química é a mesma, podem existir diferenças fisiológicas ou até mesmo de “toxicidade” no consumidor final?
Esta é uma questão que merece nossa total atenção. Apesar da fórmula idêntica, “as diferenças no seu perfil estrutural (isômeros presentes) e as impurezas residuais do processo de síntese química podem influenciar potenciais efeitos fisiológicos ou tóxicos”. A principal diferença reside nos isômeros. O isômero 3R,3’R, mais presente na versão sintética, “não ocorre naturalmente em peixes ou crustáceos” e “pode não ser processado ou eliminado da mesma forma que a forma 3S,3’S”.
Outro ponto de atenção são as impurezas residuais do processo petroquímico. Mesmo em pequenas quantidades, “traços de subprodutos químicos residuais” como “compostos nitrogenados, solventes, catalisadores metálicos (como níquel ou cobalto)” podem estar presentes. A presença desses resíduos, mesmo que dentro dos limites regulatórios, aumenta a “preocupação com potenciais efeitos tóxicos em longo prazo”.
Estudos toxicológicos garantem que, dentro dos níveis permitidos por órgãos reguladores como EFSA e FDA, a astaxantina sintética é considerada segura. No entanto, os “dados de toxicidade em longo prazo ainda são limitados”. É por isso que a “demanda pela astaxantina natural vem crescendo, não apenas pela sua alta biodisponibilidade e potência antioxidante, mas também pela percepção de segurança e sustentabilidade”.
Consumidores mais conscientes tendem a preferir produtos com carotenoides derivados de fontes naturais. O debate entre a astaxantina natural e sintética transcende a mera coloração. Ele toca em aspectos de custo-benefício, saúde animal, aceitação do consumidor e, cada vez mais, sustentabilidade ambiental. A produção sintética, embora economicamente vantajosa, está ligada a “recursos não renováveis (derivados do petróleo), o que a conecta a um maior impacto ambiental”.
Mais, por que não deixar o salmão da cor natural?
Até quando vamos comer com os olhos?
Até quando vamos a participar da palhaçada da indústria de alimentos?
Será que não poderíamos gastar toda a grana de marketing para explicar ao consumidor que o que importa é o poder nutricional e não a cor?
Quando vamos poder gritar aos quatro ventos que Aquacultura é das formas mais sustentáveis de produção de alimentos dentro do conceito de economia azul?
Idealismo?
A aquicultura sustentável não é para idealistas?










