Muitos produtores já me questionaram se os antibióticos que são administrados nos organismos aquáticos permanecem por muito tempo no corpo dos animais, e consequentemente em suas carcaças e outras partes do corpo que acabam virando resíduos a serem a tratados. Antibióticos como florfenicol e oxitetraciclina são muitas vezes utilizados na criação de peixes e outros organismos. Mas a sua dinâmica no ambiente é bastante diferente do que a dinâmica destes compostos dentro do corpo dos animais. Vamos explorar esse assunto mais a fundo?
Antibióticos são necessários em praticamente todas as produções animais, com o objetivo principal de controlar infecções bacterianas. Na aquicultura, o uso de antibióticos era amplamente adotado, especialmente em criações mais intensivas, devido aos maiores riscos de transmissão de doenças entre animais em maiores densidades de estocagem, em comparação aos sistemas menos intensivos. No entanto, desde o surgimento e o aprimoramento das vacinas hoje amplamente utilizadas na aquicultura, o uso de antibióticos foi reduzido significativamente. Doenças como a estreptococose são controladas atualmente com grande sucesso, apenas com o uso de vacinas. Porém, devido à presença de microorganismos que causam outras doenças, o uso de antibióticos ainda está presente na aquicultura.
A dinâmica de metabolização de antibióticos varia amplamente de acordo com a espécie de peixe, o tipo de antibiótico e as condições nas quais os animais estão sendo criados. O florfenicol por exemplo é um antibiótico de ampla distribuição nos tecidos animais e também de rápida eliminação. Já a oxitetraciclina apresenta uma tendência de se acumular em maior quantidade em partes não consumidas dos peixes, como ossos e escamas, enquanto no músculo, o acúmulo é baixo e praticamente não apresenta riscos para o consumo. Porém, após o peixe ser abatido, o que resta nos resíduos?
Tanto no caso da oxitetraciclina quanto do florfenicol (assim como de outros antibióticos), existem diversos registros da presença destes nas carcaças de peixes de água doce e água salgada. Portanto, quando compostamos esses resíduos, é intuitivo pensar que os antibióticos estarão presentes nas leiras de compostagem, potencialmente causando problemas para o processo, certo? Felizmente, não é bem assim. É claro que os antibióticos, os quais combatem bactérias, poderiam causar algum efeito negativo na multiplicação de algumas bactérias nas leiras, mas as quantidades reportadas na literatura para esses antibióticos são baixas e certamente não interferem na compostagem. Mas o que acontece com esses resíduos que possuem antibióticos durante a compostagem?
Diversos estudos demonstraram experimentalmente a degradação de uma série de antibióticos em leiras de compostagem, incluindo o florfenicol e a oxitetraciclina. Se imaginarmos que grande parte da degradação destes no meio ambiente ocorre devido à ação de microorganismos e processos de oxidação e hidrólise, fica fácil entender que, durante um processo de compostagem, o qual normalmente envolve transições muito amplas de grupos microbianos que oxidam a matéria orgânica, hidrolisam compostos dos resíduos, geram altas temperaturas, além de outros processos, os antibióticos não tem muita chance. Assim, estudos mostram que a degradação desses compostos muitas vezes são superiores a 99% ao longo de um processo termofílico de compostagem. É claro que os antibióticos podem estar se degradando e formando compostos secundários, dos quais não sabemos muito ainda (e a ciência está avançando bastante nesse sentido). Porém, podemos ficar tranquilos quanto à nossa compostagem, pois certamente os antibióticos que utilizamos em nossas produções não estão causando problemas em nossa gestão de resíduos.










