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Do cultivo ao prato: quando uma alga se torna alimento?

Entre cultivar uma macroalga e servi-la à mesa, existe um caminho a ser percorrido

O cultivo de algas no Brasil, ainda incipiente, tem sido muito divulgado como uma atividade promotora de renda e de impacto positivo. Trabalho justamente nesse campo: no desenvolvimento de tecnologias para cultivar macroalgas nativas, na produção de biomassa, no estudo de sua composição e na criação de aplicações, entre as quais os alimentos. Surgem, então, algumas questões, como:

Se conseguimos cultivar uma alga e sabemos que ela tem potencial alimentar, podemos colocá-la no prato?

A resposta é: não necessariamente.

Nos últimos anos, os bioinsumos aparecem com frequência crescente na discussão sobre novos produtos, sejam cosméticos, agrícolas ou alimentícios. No caso dos alimentos, uma questão é especialmente interessante: como introduzir no prato uma espécie que ainda não faz parte da nossa alimentação tradicional?

Afinal, quando uma alga se torna alimento? Não existem inúmeras espécies comestíveis?

Diversas macroalgas fazem parte, há séculos, da alimentação de populações asiáticas. Para os amantes de dramas coreanos, talvez não seja estranho pensar em uma “sopa de algas” para comemorar o aniversário. No Brasil, porém, para muita gente a primeira associação ainda é o rodízio japonês.

Não é por acaso. Ao pesquisar o histórico do consumo de algas no país, não encontrei evidências robustas de que macroalgas marinhas fossem consumidas como alimento tradicional por povos indígenas, caiçaras ou outras comunidades costeiras antes do século XX. Isso não prova que ninguém as tenha consumido, mas a ausência de documentação limita o que podemos afirmar. As primeiras evidências consistentes estão ligadas à imigração japonesa: os imigrantes trouxeram seu repertório culinário, mas enfrentaram a falta de ingredientes como o nori, que só com o tempo, junto com o kombu e outras algas, passou a integrar a alimentação dessas comunidades. A partir dos anos 1980, a culinária japonesa se difundiu entre consumidores não nikkeis, ampliando o contato dos brasileiros com alimentos preparados com algas.

Enquanto isso, as macroalgas cultivadas no nosso litoral seguiam outra trajetória. Algas nativas dos gêneros Gracilaria e Hypnea e, depois, a introduzida Kappaphycus alvarezii foram exploradas principalmente como fontes de ficocolóides, como ágar-ágar e carragenana. E aqui há uma diferença importante: comer a alga é diferente de consumir um ingrediente extraído dela. Quem come uma sobremesa com ágar-ágar de Gracilaria não comeu a alga como vegetal marinho.

Mas quando, de fato, começamos a colocar “nossas” algas no prato?

Nos anos 2000, projetos comunitários no Ceará e no Rio Grande do Norte, como o “Mulheres de Corpo e Algas” passaram a transformar algas em preparações como geleias e sorvetes, com destaque para a Gracilaria birdiae. Não era a recuperação de uma tradição ancestral comprovada, mas inovação, agregação de valor e diversificação da algicultura recém implantada. Mais recentemente, a Kappaphycus, antes voltada à carragenana e hoje também a bioinsumos agrícolas, passou a ser usada diretamente na gastronomia, em experiências em Santa Catarina e em Paraty (RJ), com preparações como tempurá e pães, tanto por produtores quanto pela própria universidade e Epagri.

A história, porém, não termina em Gracilaria e Kappaphycus. Outras macroalgas de interesse para cultivo no Brasil, como espécies dos gêneros Hypnea e Ulva, abrem uma nova frente para alimentos e ingredientes. Podemos pensar tanto no consumo da biomassa em forma próxima da integral (fresca, seca ou minimamente processada) quanto em farinhas, pós, pastas, extratos e outros ingredientes para a formulação de produtos e até mesmo novos produtos!

É aqui que a algicultura começa a encontrar a ciência de alimentos. Deixamos de perguntar apenas “o que podemos extrair dessa alga?” e passamos a perguntar: “como essa biomassa pode se tornar um ingrediente?”

Essa mudança abre possibilidades, mas também exige respostas sobre a espécie cultivada, a manutenção das características da biomassa ao longo do ano, sua composição, a influência de sabor, textura, cor e aroma no produto, as formas de processamento e conservação, os compostos ou elementos que precisam ser monitorados e, finalmente, o caminho regulatório para o uso alimentar.

Nesse cenário, a Hypnea pseudomusciformis é um exemplo particularmente interessante. Trata-se de uma espécie nativa para a qual já existem tecnologias de cultivo e pesquisas voltadas a aplicações alimentícias, embora seu histórico de consumo seja muito menos documentado que o das algas tradicionalmente consumidas em outros países. É justamente essa combinação, domínio crescente da produção e lacuna de histórico alimentar, que torna a espécie um bom retrato dos desafios que discuto aqui. [Nota de transparência: “A autora atua em pesquisa e desenvolvimento com esta espécie no projeto BlueC Bites”]

O gênero Ulva, por sua vez, inclui espécies conhecidas como “alface-do-mar” ou sea lettuce, usadas na gastronomia de diferentes regiões do mundo e estudadas em sistemas de cultivo, inclusive em sistemas aquícolas integrados.

Podemos cultivar no Brasil qualquer alga que comemos?

“Então, por que não produzir nori, kombu e wakame no Brasil?”

Porque consumo e aptidão para cultivo são questões diferentes. Uma espécie pode ter grande mercado alimentar e não encontrar condições adequadas para uma produção competitiva em determinada região. Temperatura, luz, salinidade, nutrientes, hidrodinâmica, ciclo de vida e sazonalidade interferem na produção, e é preciso verificar se a espécie cresce bem no local, se seu ciclo pode ser fechado, por quantos meses do ano ela produz, com que produtividade, a que custo e mantendo quais características da biomassa.

Poder cultivar também não significa poder comercializar como alimento.

Antes disso, precisamos responder a outra pergunta: estamos diante de um novo alimento ou ingrediente?

No Brasil, a RDC nº 839/2023, da Anvisa, estabelece o marco regulatório para novos alimentos e novos ingredientes. Entre os aspectos considerados está o histórico de consumo seguro no país, que envolve não apenas o tempo de consumo, mas também sua extensão, quantidade e forma de uso. Para caracterizá-lo, a norma considera a comprovação de consumo no Brasil por pelo menos 25 anos, como parte da dieta da população geral ou de subpopulações em diferentes regiões, em quantidades e formas de uso semelhantes às praticadas regularmente na alimentação.

Quando esse histórico não existe ou não é suficiente, isso não significa que o alimento não possa ser utilizado, mas que sua segurança precisa ser avaliada. A própria regulamentação prevê um procedimento específico para novos alimentos ou ingredientes com histórico de consumo seguro em outros países, desde que atendidas determinadas condições. Ou seja, o longo consumo de uma alga na Ásia pode facilitar o caminho regulatório no Brasil, mas não o dispensa.

De repente, aquela história sobre quem comia algas no Brasil deixa de ser curiosidade e passa a ter relevância regulatória. Uma espécie nativa não é, por isso, um alimento tradicional brasileiro; e uma espécie consumida há muito tempo em outro país não se torna automaticamente um alimento regularizado aqui. Podemos conhecer uma macroalga há décadas como recurso pesqueiro, matéria-prima para ficocolóides ou objeto de pesquisa e ainda assim não ter evidências suficientes sobre seu consumo direto como alimento nas condições propostas.

Primeiro, domesticamos, em sentido amplo, a produção: aprendemos a propagar, cultivar, colher e obter biomassa previsível de forma recorrente. Depois vem uma espécie de “segunda domesticação”, no sentido metafórico: aprender a transformar essa biomassa em um alimento previsível, seguro, processável, regulável e desejado pelo consumidor.

Ela começa no próprio cultivo, já que o local de produção, as condições ambientais e o manejo interferem na qualidade da biomassa. Depois vêm colheita, processamento, conservação, padronização e controles de segurança. E ainda é preciso entender como a alga se comporta na cozinha: sabor, textura, aparência, formas de preparo e aceitação também fazem parte da construção de um alimento. No Brasil, muitos desses padrões ainda estão sendo construídos para uma cadeia produtiva de macroalgas voltada à alimentação.

E então, qual é o caminho?

Se a resposta é “não necessariamente”, ela também não é “não”. Existe um caminho, e ele tem etapas que convém conhecer desde o início.

O ponto de partida é definir o enquadramento da espécie. Com a identificação taxonômica precisa e as evidências de consumo disponíveis, é possível consultar a Anvisa sobre se a alga já é considerada alimento no país ou se precisa de avaliação de segurança. Havendo histórico de consumo, o percurso se aproxima do de outros alimentos processados. Não havendo, a espécie é tratada como novo alimento ou ingrediente e depende de autorização prévia antes de chegar ao mercado.

Nesse segundo cenário, o que se constrói é um dossiê de segurança: caracterização da espécie e da composição da biomassa, um processo produtivo padronizado e reprodutível, dados de consumo em outros países, estudos que demonstrem a segurança do ingrediente e laudos de diferentes lotes. Para as algas, que acumulam naturalmente elementos do ambiente, o controle de contaminantes, como metais e outros compostos, merece atenção especial. É um processo que costuma envolver diálogo com o órgão regulador, com pedidos de esclarecimentos e de novos dados ao longo da análise.

É um caminho que exige tempo e investimento, mas que é previsível. E é aqui que o cenário internacional ganha importância. O Codex Alimentarius, programa conjunto da FAO e da OMS responsável por normas internacionais para alimentos, incluiu a padronização das algas em sua agenda. E há um dado que merece destaque: o Brasil coordena, com a França como co-anfitriã, o grupo de trabalho responsável por desenvolver uma proposta de Group Standard for Seaweed. Uma norma internacional ajudaria a definir o que monitorar, como padronizar e como comparar espécies, o que pode facilitar o caminho de quem cultiva e de quem regula.

Ulva, Gracilaria, Kappaphycus, Hypnea, nori, kombu e outras algas não são versões diferentes do mesmo “vegetal marinho”. São espécies com composições, formas de cultivo, processamentos, modos de consumo e questões de segurança que podem ser distintas. A diversidade que torna as macroalgas tão interessantes é também o que pode tornar sua padronização complexa.

Talvez estejamos começando uma nova história alimentar brasileira.

As evidências mais consistentes sugerem que, durante aproximadamente um século, aprendemos a comer algumas macroalgas principalmente por meio de tradições culinárias que chegaram com a imigração e depois se difundiram, enquanto exploramos muitas das algas do nosso litoral, sobretudo como matéria-prima.

Agora começamos a percorrer outro caminho. Ele não depende só de cultivar bem: depende de caracterizar a biomassa, comprovar sua segurança, padronizar processos, dialogar com o órgão regulador e desenvolver produtos junto com a gastronomia, ciência de alimentos e as comunidades produtoras. Talvez a pergunta não seja apenas se podemos comer as algas do Brasil, mas como construir, elo por elo, a cadeia que as leva até o prato.

Entre cultivar uma alga e colocá-la no prato existe uma cadeia inteira de ciência, produção, processamento, segurança, regulação e gastronomia, e é construindo cada um desses elos que as algas do Brasil poderão chegar à mesa.

Referências bibliográficas

ALENCAR, Daniel Barroso de; PIRES-CAVALCANTE, Kelma Maria dos Santos; SOUSA, Márcia Barbosa de; VIANA, Francisco Arnaldo; SAKER-SAMPAIO, Silvana. Aminas biogênicas em macroalgas marinhas do Estado do Ceará, Brasil. Revista Ciência Agronômica, Fortaleza, v. 42, n. 2, 2011. Disponível em: https://www.periodicos.ufc.br/revistacienciaagronomica/article/view/84120. Acesso em: 10 out. 2026.

ANVISA. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução da Diretoria Colegiada – RDC nº 839, de 14 de dezembro de 2023. Dispõe sobre a comprovação de segurança e a autorização de uso de novos alimentos e novos ingredientes. Brasília, DF: Anvisa, 2023. Disponível em: https://anvisalegis.datalegis.net/action/ActionDatalegis.php?acao=detalharAto&cod_menu=9882&cod_modulo=310&nomeTitulo=codigos&numeroAto=00000839&orgao=RDC%2FDC%2FANVISA%2FMS&seqAto=000&tipo=RDC&valorAno=2023. Acesso em: 10 out. 2026.

HANDA, Tomoo. O imigrante japonês: história de sua vida no Brasil. São Paulo: T. A. Queiroz; Centro de Estudos Nipo-Brasileiros, 1987.

MORI, Koichi. As condições de aceitação da culinária japonesa na cidade de São Paulo: por que os brasileiros começaram a apreciar a culinária japonesa? Estudos Japoneses, São Paulo, n. 23, p. 7–22, 2003. DOI: https://doi.org/10.11606/issn.2447-7125.v0i23p7-22.

SIMIONI, Carmen; HAYASHI, Leila; OLIVEIRA, Mariana C. Seaweed resources of Brazil: what has changed in 20 years? Botanica Marina, v. 62, n. 5, p. 433–441, 2019. DOI: https://doi.org/10.1515/bot-2019-0021.

ARAÚJO, Glacio Souza; RODRIGUES, José Ariévilo Gurgel. Maricultura da alga marinha vermelha Gracilaria birdiae em Icapuí, Ceará. Arquivos de Ciências do Mar, Fortaleza, v. 44, n. 1, p. 62–68, 2011.Disponível em: https://repositorio.ufc.br/bitstream/riufc/19224/1/2011_art_gsaraujo.pdf.

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KLEIN, Letícia. Da indústria à mesa, macroalgas ganham espaço no Brasil. Mongabay Brasil, 15 ago. 2026. Disponível em: https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/noticias-da-floresta/2026/08/15/da-industria-a-mesa-macroalgas-ganham-espaco-no-brasil.htm. https://brasil.mongabay.com/2026/08/da-industria-a-mesa-macroalgas-ganham-espaco-no-brasil/. Acesso em: 10 out. 2026.

UNIVERSIDADE FEDERAL DE VIÇOSA. Nutricionistas da UFV criam produtos alimentícios à base de algas marinhas visando o desenvolvimento social de comunidades costeiras. Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação, Viçosa, 10 set. 2014. Disponível em: https://ppg.ufv.br/informativo/nutricionistas-da-ufv-criam-produtos-alimenticios-a-base-de-algas-marinhas-visando-o-desenvolvimento-social-de-comunidades-costeiras/. Acesso em: 10 out. 2026.

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