O que o cultivo de kappaphycus na Índia pode ensinar ao Brasil?

O cultivo da alga Kappaphycus alvarezii transformou-se, em apenas duas décadas, em um exemplo de como ciência, políticas públicas e organização social podem abrir novos caminhos para a maricultura. A experiência indiana traz lições valiosas que podem inspirar o Brasil, país que também iniciou a produção dessa espécie, mas ainda em escala limitada.

Expansão produtiva com impacto social

Entre 2005 e 2020, a produção indiana alcançou 8.088 toneladas (peso seco), com valor estimado em US$ 2,39 milhões. Mais que números, a atividade gerou cerca de 765 mil dias de trabalho por ano, oferecendo alternativa de renda para comunidades pesqueiras dependentes da coleta manual e desorganizada de algas.

Um aspecto decisivo foi a inclusão das mulheres. Na Índia, elas assumiram papéis de liderança em grupos de autoajuda (Self Help Groups – SHGs), que se tornaram o modelo mais eficiente para organizar a produção e dar autonomia às famílias costeiras.

Modelos de cultivo adaptados à realidade local

A evolução dos sistemas indianos mostra que não há uma única fórmula. Foram testados diferentes modelos:

  • Mão de obra contratada – útil para fase inicial, mas pouco sustentável no longo prazo.
  • Modelo familiar – garante comprometimento e divisão de tarefas, mas tem alcance limitado.
  • Contrato com indústrias – reduz riscos para produtores, mas cria dependência de compradores.
  • Grupos de autoajuda (SHGs) – fortalecem a comunidade, garantem renda previsível e ampliam a participação feminina.

Esse aprendizado pode ser crucial para o Brasil, onde a maricultura ainda busca formatos que conciliem escala produtiva, inclusão social e estabilidade econômica.

Inovação e diversificação de produtos

A Índia não se limitou a produzir a alga in natura. O país investiu em pesquisa e patenteou processos para gerar novos produtos, como:

  • Biofertilizantes líquidos e granulados – usados em arroz, milho, trigo e batata, aumentaram a produtividade agrícola em 11% a 36%.
  • Bioplásticos e filmes biodegradáveis – desenvolvidos a partir do carragenano extraído da alga.
  • Produtos nutracêuticos e cosméticos – cápsulas para tratamento de distúrbios da tireoide e pomadas antimicrobianas estão entre os exemplos já no mercado.

Essa diversificação ampliou o valor agregado e reduziu a dependência de um único mercado.

Apoio financeiro e institucional

Outro ponto de destaque foi a integração entre governo, bancos e empresas privadas. O Banco Nacional de Agricultura e Desenvolvimento Rural (NABARD) criou linhas de crédito específicas, enquanto o programa federal Pradhan Mantri Matsya Sampada Yojana (PMMSY) incluiu a algicultura como prioridade nacional, oferecendo subsídios de até 60% dos custos de implantação para comunidades mais vulneráveis.

Integração com outras cadeias

A Índia também testou o cultivo integrado de algas com peixes como o bijupirá (Rachycentron canadum). O modelo, conhecido como aquicultura multitrófica integrada, resultou em 41% mais lucro e aumento no sequestro de carbono, mostrando potencial ambiental e econômico.

E o Brasil?

O Brasil já aparece entre os países que cultivam Kappaphycus, mas ainda de forma incipiente. A trajetória indiana sugere que os avanços não dependem apenas de técnica, mas de políticas públicas consistentes, acesso a crédito, modelos sociais inclusivos e incentivo à inovação.

A pergunta que fica é: o Brasil seguirá a Índia e transformará o cultivo de algas em uma nova fronteira de desenvolvimento costeiro – econômica, social e ambientalmente sustentável?

Cultivo de algas marinhas em sistema de maricultura costeira, com algas presas a cordas submersas no mar.
Colheita de algas em sistema de maricultura costeira no Brasil. (Foto: Paula López Barba/El País)

Estudo original / referência:

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