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Qual tecnologia devo escolher para tratar os resíduos da minha produção?

Nos últimos artigos da coluna Gestão de Resíduos, nós trouxemos uma série de tecnologias adequadas para o tratamento de resíduos na produção aquícola, como a compostagem, a produção de silagens, a digestão anaeróbia e a bioconversão com insetos. Mas muitos têm me perguntado: qual a melhor tecnologia para eu adotar em minha propriedade, em termos de praticidade e ganho econômico? Para responder essa pergunta, temos que considerar uma série de fatores, como as características individuais de cada propriedade aquícola, a proximidade com centros urbanos, a disponibilidade de materiais adicionais, energia e água, das necessidades de cada produtor e é claro, da possibilidade de uso ou escoamento dos produtos obtidos com cada processo. Na tabela abaixo estão apresentados alguns pontos a serem considerados em cada tecnologia.

Tecnologia Melhor para Principal produto Vantagens Limitações
Compostagem em leiras Peixes mortos, carcaças, lodos parcialmente desidratados Composto orgânico (fertilizante) Baixo investimento, operação simples, método robusto e abrangente Grande demanda de área, emissões potencialmente altas
Compostagem em reatores Peixes mortos, carcaças, lodos parcialmente desidratados Composto orgânico (fertilizante) Processo altamente controlado, maior previsibilidade, maior agilidade, baixas emissões Maior investimento, alto consumo energético
Silagem Resíduos frescos do processamento Silagem proteica (alimento animal) Preserva nutrientes, operação simples, baixo custo, permite alimentar animais (redução de custo), baixas emissões Uso restrito de resíduos, necessidade de controlar pH/conservação, destino do produto deve ser definido
Digestão anaeróbia Peixes mortos, carcaças, lodos, resíduos frescos Biogás e digestato (fertilizante) Recuperação energética, permite tratar resíduos úmidos, preserva nutrientes, baixas emissões, integração energética Maior investimento e complexidade, difícil operação e controle, requer investimento para o uso do biogás
Tratamento com insetos Peixes mortos, carcaças, lodos, resíduos frescos Biomassa de insetos (alimento animal) e frass (fertilizante) Tratamento rápido, recupera nutrientes, elevado potencial de valorização, permite alimentar animais, baixas emissões Operação complexa, requer mão de obra especializada, alto investimento

Existem vantagens e desvantagens ao adotar cada uma dessas tecnologias, como apresentado na tabela. Portanto, como decidir o que fazer? Vamos dar dois exemplos práticos de casos reais, um no Brasil e outro no México, para auxiliar na sua tomada de decisão:

Caso 1 (Brasil)

Em uma piscicultura de engorda de tilápias localizada na região Centro-Oeste, o piscicultor produzia, além de peixes, algumas culturas hortícolas e árvores frutíferas. Assim sendo, ele tinha interesse em adotar alguma tecnologia que permitisse a produção de fertilizantes orgânicos para reduzir sua dependência (e custos) por fertilizantes externos. As opções que ele tinha então eram: compostagem em leiras, compostagem em reatores, digestão anaeróbia ou tratamento com insetos. Frente às vantagens e desvantagens de cada tecnologia (ver tabela), o produtor optou pela compostagem em leiras. Essa decisão foi tomada pelos seguintes fatos: a) o produtor não tinha pressa em produzir adubos, portanto um reator fechado não se fez necessário; b) a complexidade de se produzir um reator para aplicar a digestão anaeróbia não era interessante também devido aos custos e aos ajustes necessários no processo, o que demandaria mais mão de obra do que a disponível no local; e c) o uso de insetos como larvas de mosca soldado negro foi identificado como muito complexo pelo produtor e a falta de mão de obra especializada complicaria sua adoção. Já a compostagem em leiras necessitou de baixo investimento (compactação do solo e isolamento com lonas de geomembrana, no caso) e um treinamento rápido de dois funcionários da propriedade, o que foi suficiente para que os resíduos fossem tratados adequadamente, suprindo a necessidade do produtor, por fertilizantes para suas culturas.

Caso 2 (México)

Em uma piscicultura indoor de engorda de salmões, o produtor identificou um gargalo no preço das rações utilizadas, que estava muito alto já há meses. A piscicultura contava com um grande investimento de painéis solares já existentes no local. Outro fato muito interessante é que, próximo da piscicultura existe uma empresa de tratamento de resíduos sólidos da agroindústria por meio da bioconversão com insetos. Ao identificar essa vantagem, o produtor decidiu por optar pelo tratamento com larvas de insetos (mosca soldado negro). A empresa fornecia ao produtor larvas jovens e na própria piscicultura, o produtor construiu um galpão aonde tratava seus resíduos (carcaças de animais mortos na produção, resíduos do processamento e lodos de filtros). O galpão, que precisava ser parcialmente aquecido e manter uma ventilação alta para extração de ar e umidade, contava com a energia renovável da propriedade (solar), e o produtor conseguiu substituir quase 15% da ração utilizada na engorda dos peixes, pelas larvas de BSF, fornecidas vivas, sem necessidade de processamento.

Os dois casos representam a adoção consciente de tecnologias distintas para o tratamento de resíduos, as quais promovem a circularidade de nutrientes e potencialmente aumentam a sustentabilidade das propriedades mencionadas. Assim, concluímos com a seguinte questão: existe tecnologia melhor do que a outra? E a resposta é não. O que existe é a tecnologia que se adequa melhor às suas demandas e à sua realidade produtiva. Ao tomar uma decisão de qual tecnologia será adotada, devemos ser conscientes e ponderar as vantagens e desvantagens de cada uma delas, de modo a permitir um processo de longo prazo que não comprometa, mas sim complemente a nossa produção de forma mais sustentável.

Iva Guidini Lopes

Doutor em Aquicultura

Pesquisador na Swedish University of Agricultural Sciences

Alnarp, Suécia

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