| Tecnologia | Melhor para | Principal produto | Vantagens | Limitações |
|---|---|---|---|---|
| Compostagem em leiras | Peixes mortos, carcaças, lodos parcialmente desidratados | Composto orgânico (fertilizante) | Baixo investimento, operação simples, método robusto e abrangente | Grande demanda de área, emissões potencialmente altas |
| Compostagem em reatores | Peixes mortos, carcaças, lodos parcialmente desidratados | Composto orgânico (fertilizante) | Processo altamente controlado, maior previsibilidade, maior agilidade, baixas emissões | Maior investimento, alto consumo energético |
| Silagem | Resíduos frescos do processamento | Silagem proteica (alimento animal) | Preserva nutrientes, operação simples, baixo custo, permite alimentar animais (redução de custo), baixas emissões | Uso restrito de resíduos, necessidade de controlar pH/conservação, destino do produto deve ser definido |
| Digestão anaeróbia | Peixes mortos, carcaças, lodos, resíduos frescos | Biogás e digestato (fertilizante) | Recuperação energética, permite tratar resíduos úmidos, preserva nutrientes, baixas emissões, integração energética | Maior investimento e complexidade, difícil operação e controle, requer investimento para o uso do biogás |
| Tratamento com insetos | Peixes mortos, carcaças, lodos, resíduos frescos | Biomassa de insetos (alimento animal) e frass (fertilizante) | Tratamento rápido, recupera nutrientes, elevado potencial de valorização, permite alimentar animais, baixas emissões | Operação complexa, requer mão de obra especializada, alto investimento |
Existem vantagens e desvantagens ao adotar cada uma dessas tecnologias, como apresentado na tabela. Portanto, como decidir o que fazer? Vamos dar dois exemplos práticos de casos reais, um no Brasil e outro no México, para auxiliar na sua tomada de decisão:
Caso 1 (Brasil)
Em uma piscicultura de engorda de tilápias localizada na região Centro-Oeste, o piscicultor produzia, além de peixes, algumas culturas hortícolas e árvores frutíferas. Assim sendo, ele tinha interesse em adotar alguma tecnologia que permitisse a produção de fertilizantes orgânicos para reduzir sua dependência (e custos) por fertilizantes externos. As opções que ele tinha então eram: compostagem em leiras, compostagem em reatores, digestão anaeróbia ou tratamento com insetos. Frente às vantagens e desvantagens de cada tecnologia (ver tabela), o produtor optou pela compostagem em leiras. Essa decisão foi tomada pelos seguintes fatos: a) o produtor não tinha pressa em produzir adubos, portanto um reator fechado não se fez necessário; b) a complexidade de se produzir um reator para aplicar a digestão anaeróbia não era interessante também devido aos custos e aos ajustes necessários no processo, o que demandaria mais mão de obra do que a disponível no local; e c) o uso de insetos como larvas de mosca soldado negro foi identificado como muito complexo pelo produtor e a falta de mão de obra especializada complicaria sua adoção. Já a compostagem em leiras necessitou de baixo investimento (compactação do solo e isolamento com lonas de geomembrana, no caso) e um treinamento rápido de dois funcionários da propriedade, o que foi suficiente para que os resíduos fossem tratados adequadamente, suprindo a necessidade do produtor, por fertilizantes para suas culturas.
Caso 2 (México)
Em uma piscicultura indoor de engorda de salmões, o produtor identificou um gargalo no preço das rações utilizadas, que estava muito alto já há meses. A piscicultura contava com um grande investimento de painéis solares já existentes no local. Outro fato muito interessante é que, próximo da piscicultura existe uma empresa de tratamento de resíduos sólidos da agroindústria por meio da bioconversão com insetos. Ao identificar essa vantagem, o produtor decidiu por optar pelo tratamento com larvas de insetos (mosca soldado negro). A empresa fornecia ao produtor larvas jovens e na própria piscicultura, o produtor construiu um galpão aonde tratava seus resíduos (carcaças de animais mortos na produção, resíduos do processamento e lodos de filtros). O galpão, que precisava ser parcialmente aquecido e manter uma ventilação alta para extração de ar e umidade, contava com a energia renovável da propriedade (solar), e o produtor conseguiu substituir quase 15% da ração utilizada na engorda dos peixes, pelas larvas de BSF, fornecidas vivas, sem necessidade de processamento.
Os dois casos representam a adoção consciente de tecnologias distintas para o tratamento de resíduos, as quais promovem a circularidade de nutrientes e potencialmente aumentam a sustentabilidade das propriedades mencionadas. Assim, concluímos com a seguinte questão: existe tecnologia melhor do que a outra? E a resposta é não. O que existe é a tecnologia que se adequa melhor às suas demandas e à sua realidade produtiva. Ao tomar uma decisão de qual tecnologia será adotada, devemos ser conscientes e ponderar as vantagens e desvantagens de cada uma delas, de modo a permitir um processo de longo prazo que não comprometa, mas sim complemente a nossa produção de forma mais sustentável.
Iva Guidini Lopes
Doutor em Aquicultura
Pesquisador na Swedish University of Agricultural Sciences
Alnarp, Suécia
